Queridos leitores, estamos em recesso, buscando novas histórias e inspirações. Voltaremos em março.
Equipe do Segunda a Sexta – Luciene, Tiana, Aline, Raquel e Gazza.
“Não existe pecado do lado de baixo do equador. Vamos fazer um pecado, rasgado, suado, a todo vapor”
Queridos leitores, estamos em recesso, buscando novas histórias e inspirações. Voltaremos em março.
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Por Lúcia Gomes ‘O poente que não cicatriza ainda fere a tarde” - Jorge Luis Borges Naquele Natal sentamos os três diante da mesa. Não uma ceia de costume: apenas pães, pastas, frutas. Os olhos baixos, diante da cadeira vazia. Como recomeçar? Erguer as taças lilases pela felicidade? Qual? Um esforço acima das nossas forças nos fazia estar ali, sentados, olhando para o nada. Os olhos não se cruzavam e nenhum sorriso estamparia qualquer alegria. Estávamos sem jeito. Aquilo nos incomodava. Uma cena faltando personagem. A história impossível escrevê-la novamente. Não coloca a taça na mesa antes de fazer o pedido! Um viva a nós! Pela alegria da gente! Muita grana! Paz! Toca aqui! Toca aqui! Toca aqui! Toca aqui! Uau!!! Foi. Finalmente vamos comer. Passa para cá a salada. Deixa que eu corto o peru, mãe. Você quer o peito? O feijão fradinho, por favor. Acorda, cara! Passa para cá as batatas. Desliga a televisão. Ah, não, deixa ligada. O cachorro pegou a rúcula. Mãe, ele come rúcula? É o único cachorro do mundo que come rúcula. Ihhhh….a pequena virou o refigerante no chão.Não importa. Pega o pano lá área. Gente, hoje é festa, não se esquenta. Pô, essa [...]
O coração doce, de batidas poéticas de Ana Flor quase parou quando o seu quase-namorado lhe disse, assim, como quem diz que não gosta de drops de hortelã, que não gostava das canções de Chico Buarque. – Não ligo – disse o rapaz, torcendo o nariz. A moça tentava puxar a respiração, que não vinha. Sentia-se constrangida com tamanha decepção. Como ela poderia amar alguém que desprezava versos que lhe contornavam os sentidos? Faziam rimas doces com suas dores. Ana Flor vivia naquele tempo da delicadeza cantado pelo Chico e era ali que ela esperava, com seu melhor vestido, encontrar o grande amor. Mas aquela declaração cantarolava em seus ouvidos: ‘mentira!’, ‘mentira’!. A moça tinha a suavidade de Terezinha, o olho que não está, flutuante, de ‘tanto amar’. E seus sonhos tinham paredes de fundo feitas de giz: Ana Flor sonhava que um dia seria uma pintura, inspiradora como Beatriz. ‘Será que é loucura?’ Ana Flor até remoçava quando cantava para o vazio, ‘olhos nos olhos’: ‘Quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita, pode crer’. Ninguém suportaria vê-la tão feliz enquanto repetia aqueles versos. – Não ligo para o Chico– ela relembrava, toda vez que olhava para seu quase-namorado. [...]
Na praia começaram a gritar: — Olha o Chico, olha o Chico, olha o Chico! As meninas começaram a ficar alvoroçadas… Na praia era o pior lugar para o Chico chegar. Elas estavam de biquíni, não havia onde se trocar e nenhuma vendinha de modess ou O.B por perto. Que furada! Uma delas correu para o mar, dizem que a corrente d’água diminui o fluxo… Bem, alguma hora ela terá de sair. Outras se enrolaram na canga, vestiram o short, recrutaram seu companheiro para lhes fazer paredinha até o carro… Que lambança! Mas, peraí… o Chico não veio. Nenhuma mancha vermelha, nenhuma perna cagada, nenhum sangue escorrendo pelas pernas. Não passou deixando vergonha. — Calma, gente. É só o Chico Buarque. E a muherada: — O Chicooooooooooo!
Claro que ninguém se importa com minha aflição. . A música de Chico voltou com toda força às rádios que, como eu, andam em busca de bons momentos do passado para compensar a falta de criatividade do presente. Em cada verso, muita história de todos os cantos. Emoções novas, birncadeiras com o brega e com o que tira da elite como preço de bom. O sorriso do homem que não dá entrevistas é todo contente com sua convicção de viver para dentro e com os amigos no quintal. Sem contar a brincadeira na praia. Sim, eu evoco o passado e trago para o momento de pegar a estrada sozinha, enfrentando os caminhões e engarrafamentos. E vivas. Eu hoje fiz as unhas, dei um trato no cabelo, troquei de bolsa e fui trabalhar. Pelas tabelas e com um pouco de poesia sobrevivente.. Bom dia para você que também paga aluguel!
As pernas enroscadas Os seios aconchegantes O sono leve e profundo O calor na medida exata Você, minha perfeita almofada
Não há almofada que abafe esse medo, Maria o meu gosto azedo, desejo de te sufocar Não há almofada que esconda, Maria palavras que desmaiam para me salvar Meus olhos opacos, Maria, são como praia abandonada viela escura, esquecida, desalmada. Eles refletem o que sinto ao não te ter, amada E deixam a poesia espumar, calada bordados que a correnteza ainda não levou Não há almofada que aceite, Maria O rasgo miserável desse amor
A gente o chamava de Almofada porque era a coisa mais gostosa de se abraçar. Ele era muito grandão e macio, tinha um colo muito apetitoso e convidativo. Era meigo e achávamos muita graça dele, tudo que ele fazia tinha um quê de cômico, de chanchada. Era também algo tímido e deprimido e chorava em alguns porres que a galera tomava. Mas nunca dizia por que estava chorando. A gente perguntava: “Que foi, Almofada? Fala que a gente quer ouvir. Somos seus amigos e é importante pra gente.” Mas ele dizia que não era nada e que ele era um bobo. E o Almofada comia cada gororoba. Um clássico era o miojo com ovo e lingüiça. Imagina o revertério! E era tanta mistura de sal com doce, de pão com comida, de refrigerante com cerveja… Eu não queria nem imaginar como devia ser lá dentro do estômago do Almofada… Agora o Almofada é outro. Emagreceu cinqüenta e tantos quilos, graças a uma cirurgia bariátrica, e se a gente não pode dizer que ele está fininho, podemos dizer que é um sujeito normal, com algumas dobrinhas a mais. Casou e tem dois moleques… Como o tempo passa depressa e a vida [...]
Primeiro cheguei com Flavio em casa. E Nice estava lá. Latiu muito para ele no início, “devia ser a barba”, ele respondeu ao seu rosnado, constrangido. Semana seguinte, Flavio trouxe um ossinho daqueles cor de gelo e bons de roer; ela abanou o rabo durante alguns anos para ele. Conquistou-a, mas não a mim, enjoei de seu ciúme. Ele se foi. Depois cheguei com Marcelo. E Nice estava lá. Agachou para acarinhá-la, ela nem desconfiou que aquele belo rapaz de olhos verdes não seria fiel a mim. Corria e pulava em volta de suas pernas, implorando atenção enquanto estivéssemos na sala. Eu fazia quase a mesma coisa, no quarto. Depois da traição, acho que Nice ficou mais triste, era saudades. Eu não, preferi substituir o amor fascinado por ódio. Autopreservação. Passou algum tempo magoado, cheguei então com Jorginho. E Nice estava lá. Sem muitas reações, levantou a cabeça, viu logo que não era Marcelo, abanou um pouco o rabo e voltou a apoiar o pescoço na almofada de retalhos. Ela não estava bem naquele dia, depois descobri. Jorginho sim, foi uma noite e tanto. E depois outras. Ficou anos e anos com suas manias. Ela se foi um pouco depois. [...]
Molhada, a almofada traduzia a noite. Começou com o tesão dos solteiros embriagados. Deu certo a expectativa, nem bem sabe como, porque a síndrome amnesium ettilicus apoderou-se de seus registros recentes. Corpos calientes e tudo caminhava para o clímax não fosse o pequeno detalhe dos descuidados confiantes demais na proteção metafísica dos boêmios… Ela dizia: “Ai, como está quente…”. Ele disse “Hot, gata, vem, hot…”. E agarrou-a, achando mais sexy perceber que ela tentava fugir de seus amassos. Estava animado e adorava falar em reticências, porque as frases no sexo não têm conclusão. Entre desconhecidos, nem começam, o que significa que tinham ido bem além mesmo. “Não, está pegando fogo!”, ela gritou e conseguiu se desvencilhar. Ainda tonto de susto, tesão golpeado e muitas doses de uísque pesando no sangue, ele teve que tomar providências. Era o sofá, em chamas já elevadas. Só com muita água evitaram o pior, embora “pior” tivesse muitas outras aplicações naquele momento.
Sem palavras Sem gestos Apenas observo Não vejo Não leio Apenas observo Surdo Paralisado Apenas observo Viver, esse verbo
Eu tenho pouco pra lhe falar Larguei arma, fogo, munição O que era glorioso, enterrei em qualquer chão . Nosso tesouro virou obra desvalida Joguei às traças, no lixo inimigo, aquela vida O que fazia sentido, acomodei em perdidos desvãos . Eu tenho muito pouco pra lhe falar Perdi palavras, senhas, orações O que batia minhas asas, agora segura minhas mãos