Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postBandeira Branca

Tiana Maciel Ellwanger

Naquela manhã, ela decidia permanecer. Enquanto apreciava o cheiro de mel e mostarda do prato sujo que ficara na sala, ao som de parafusos sendo penetrados para quase-sempre, Elisa apreciava

– só agora

– permanecer.

Era o início do Carnaval, para o seu deleite e o de milhões de sua espécie.

Mas uma ligação a fez mudar de planos. Iria para a rua. Foliã mais uma vez? Não resistia a ele. À sua voz grave pelo telefone, falava com intensidade; Saudades. Já não queria permanecer. Dispensou o homem-parafuso. E foi. Andava no contra-fluxo em busca dele, até ouvir um grito: Professora! Como gostava de ser chamada dessa forma. Era um alento para suas poucas rugas egoístas.

Olhos vermelhos e a voz arrastada, o adolescente vestido de mendigo dizia sentir saudades de suas aulas de História. “Você viu esse último filme sobre o Holocausto, professora?”, mendigo perguntou. Respondeu que ainda não tinha tido oportunidade, mas assistiria em breve. “É muito bom”, disse, querendo acrescentar. “Estou trabalhando no Outback”, continuou, com pouco orgulho. Mas queria voltar a estudar, fez a emenda de forma enérgica, como se estivesse sendo cobrado. Ela tentava lembrar seu nome. Ele disse que precisava ir porque sua namorada não estava passando bem. Elisa sorriu e desejou boa sorte.

Passava e pensava entre máscaras, suor, cheiro de cerveja e urina; os beijos e as mãos desejantes faziam com que sentisse inveja. Uma gota de suor escorria pelas costas. Uma cerveja, por favor. Muitos vinham e ela ia, em direção à barraca da Ana, onde ele estava. 

A criança de Super-Homem a fez sorrir. Já não queria filhos.

Repente,  seus olhos foram tapados pela mão quente. A voz que queria ouvir dizia: o que procura, Colombina? Era ele, sempre ele. Nunca ele. Levantou o cabelo dela e beijou sua nuca. Ao arrepiar-se, virou fingindo surpresa. Abraçaram-se, com o conforto do cheiro que atrai. “Estava buscando você”, disse para se arrepender. Ele sorriu com ar superior e deu muitos beijinhos rápidos em sua boca pintada. “Para onde vamos?”, resolveu perguntar. “Para onde quiser, pequena”. “Quero permanecer, com marchinhas conhecidas”, respondeu sem pensar. “Permanecer? Vamos mais para perto da bateria?”. “Pode ser”, respondeu tomando a frente e acenando para os amigos que o acompanhavam.

Ansiedade com o que estava por vir. A tranqüilidade dele só piorava sua vontade de adivinhar. Mais cerveja, por favor. Um cigarro. Será que a Era de Aquário a ajudaria este ano? Otimismo bobo, não cansara disso, Elisa? Queria ele para sempre, mais perto, todos os dias, poderia dizer em seu ouvido. Mas não se exporia agora. Talvez nunca.

Por ora, se deliciaria com os abraços dançantes. Outra bem gelada refrescava os ciúmes da vida amoral de que ele não abria mão. Bebe rápido, Elisa. Assim se esquecerá de que quer voltar a permanecer, com ele. De que quer levá-lo embora para seu mundo de coisas simples.

Uma foto, um deles sugeriu, mais uma para a coleção virtual que a fazia querê-lo ainda mais. Ele sabia, mas ironizava. Ela também. Risos, mais marchinhas, desejo de outros toques. Vamos embora para o íntimo, longe de outras almas? Ela queria, sem dizer. Mas o Carnaval estava apenas no início. Para ela, um novo início de trocas que se perdiam em lembranças ao longo dos anos. Exatos seis anos, contou nos dedos e se impressionou. Na Quarta-feira de Cinzas, tentaria dar um fim. Sem ser capaz.

“Bandeira branca, amor,
Não posso mais,
Pela saudade
Que me invade eu peço paz”.

Chorou feliz, ao acompanhar, cantando para ele, a letra triste. Ele sorria e a envolvia. Cada vez mais. Era um bom início.

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17.02.09 em: Terça



5 Comentários »

  1. Fabiano disse:

    Ótimo texto!
    Devorei a história em um segundo, como se eu estivesse lendo apenas 3 linhas.
    O que é bom dura pouco, é o que dizem.
    Há continuação?
    Tomara…
    Beijos

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  2. Mara Lúcia disse:

    Interessante como o texto me fez “viajar” entre a ilusão e a realidade, misturando emoções de tristeza e alegria.

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  3. Andréa Farias disse:

    Que gostoso foi esse carnaval.
    Essa novidade de viver… srsr
    Lindo texto querida colombina.
    Beijos

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  4. Tiana disse:

    Fabiano,
    Que bom que gostou.
    Não tinha pensado numa continuação, mas é uma ideia…
    Beijo e obrigada

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  5. Leila C. disse:

    “…Mas é carnaval, não me diga mais quem é você
    Amanhã tudo volta ao normal
    Deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar
    Que hoje eu sou da maneira que você me quer
    O que você pedir eu lhe dou
    Seja você quem for, seja o que Deus quiser
    Seja você quem for, seja o que Deus quiser…”

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