Miopia
Aline Leal
Desço as escadas do metrô com um objetivo, te reconheço entre os que voltam do trabalho pela estação da Carioca. A mesma roupa padrão dos executivos do centro do Rio, a estatura mediana e, no entanto, o meu radar te identifica, está alerta com a tua presença. Reconheço uma gordurinha lateral, o formato da tua cabeça, a espessura da tua pele, o teu cheiro que está na minha memória. Olho bem e, não é você.
Há meses te reconheço em outros homens. Vou a um restaurante e, lá te encontro, na fila para pesar o almoço. Te persigo pela praça da Cinelândia após reconhecer o movimento dos teus ombros enquanto ri. Te pego falando sozinho, te direi para não desenvolver essa mania louca da tua família; acho engraçado e, rio sozinha. Dou a meia-volta no Teatro Municipal.
A frustração interminável da coincidência que nos separa dói pela solidão da espera. Pelo reencontro, almoço sozinha e ando sozinha pela praça da Cinelândia. Uso roupas novas na esperança do fim da espera e, no desespero da expectativa, vivo quase que de forma suicida. E choro. Choro como se dois corações latejassem na minha garganta e a ferissem de sangue por dentro. Choro uma água quente que soluça e engasga de tanto desespero. Choro escondida, choro o choro mais doído que é pra dentro.
No ônibus para o centro, te reconheço sentado no banco à minha frente. Ouve música, está de gel no cabelo e eu penso: de onde tirou essa moda nova de passar gel no cabelo? O teu corpo é o molde perfeito para o meu corpo que te espera. Desço do ônibus dois pontos depois do meu. Corro, mas quando chego à plataforma, o metrô já fechou as portas, parte e te vejo em pé no último vagão que passa. Está de calça jeans, aquela calça jeans que acentua os teus quadris, engordou desde a última vez.
Calculo passar em frente à pilastra onde poderei abrir o meu choro escondido. É um lugar feliz e acolhedor como um pequeno banheiro. Espero o elevador vazio, saio por último da sala e invento crises de alergia quando me pegam em um momento de choro desordeiro.
Com uma calma aparente, ando sozinha pela praça Tiradentes, mas o choro está a um fio, a espera de um lugar vazio. Você vem na minha direção, te reconheço com a roupa casual de sexta-feira. Chega perto de mim e diz, Anna? Os músculos rígidos que me ajudavam soltam-se e, perdidas, as lágrimas saem fartamente. Nervosa, digo, com raiva, que saia já da minha frente, já da minha frente. Atrapalhada, saio correndo e com medo.
04.03.09 em: Quarta