A vida em 72 horas
Gazza
- Foram três dias, Lígia Selma! Três dias!
- Eu disse que demorava, Antonio Carlos. Eu disse.
- Mas três dias!!!
Antonio Carlos estava desolado, inconsolável. Nunca havia passado por situação tão humilhante na vida. Nem mesmo menino, quando era obrigado pela mãe a vender balas nos sinais de trânsito de uma grande metrópole. Está certo que a vida não havia melhorado muito desde aquela época. Mas na cabeça de Antonio Carlos, ladrilheiro de uma empreiteira às voltas com escândalos envolvendo o uso de verba pública, aquela situação era inconcebível. Não se tratava do feito em si, pesava mais, no alma chovinista daquele operário , a espera. Os três dias que o lançaram à escuridão, à sombra do fracasso. Toinho, como Lígia Selma costumava chamá-lo, era calmo. Não perdia a cabeça por pouca coisa. Mas naquela noite algo havia mudado, de certa forma.
Sentado à beira da cama, chorava copiosamente. Pensava em medidas drásticas, descabidas para a pacata rotina que levava num barraco em Coqueiral, a maior favela da cidade. Repetia várias vezes à mulher, embalado por versos de Roberto Carlos, que rodava numa antiga vitrola.
- Três dias, Lígia Selma!!
A mulher, sempre meiga e atenciosa, já não sabia mais o que dizer. Havia tentado de tudo para mudar a situação, sem sucesso. Chorava copiosamente, enquanto observava Toinho com a alma arrastada no chão. Em desespero, levantou da cama, caminhou até o banheiro, do lado de fora do pequeno casebre. O corpo nu, sob uma velha camisola, chorava como uma criança perdida. Foram 15 minutos até retornar à casa.
- Meu Deus, Toinho, o que você fez? Eu disse, eu disse a você – berrava Lígia Selma, diante do corpo do marido, pendurado, ainda balançando. Em volta do pescoço do pedreiro, uma calcinha da mulher enrolada, retorcida pela força da morte. Toinho não havia superado a humilhação.
- Eu avisei, meu Deus! Eu disse que demorava a gozar…Eu disse que demorava a gozar…
06.03.09 em: Sexta