Quarto-e-sala
x Convidado Sábado x
Por João M. S.
São só dois os livros na minha sacola, mas o peso é de todas as páginas que alguém pode ler até chegar ali, ao ponto de despedida de uma vida que se imaginava eterna, em companhia inseparável. Estamos a sós, nós dois e a mesa sem cadeiras. Mas já não choramos, talvez porque temos os dois a certeza de que a essa altura arder os olhos só atrapalharia mais ainda a nossa visão deturpada de toda a história.
“Tem certeza que não quer ficar e pegar a estrada amanhã de manhã?”
Não tenho, mas vou.
“Só mais uma pergunta. Ela já te ama? Você ama?”
Não sei. Não vou dizer.
“Não vai me falar quem é?”
Não posso.
Desço pela escada, devagar, como se deixasse doer e purgar cada degrau dos três lances de escada que tocavam meus pés doridos para nunca mais senti-los. Não mais descalço, nem cambaleante, nem apressado.
***
Reinvento a rua pensando que teria morado ali, não por acreditar numa felicidade que não tive, mas porque aquela rua me basta, por longe que seja do mar ou das ruas bonitas da praia, dos risos contidos e das roupas novas de quem anda na rua com alguma preocupação despreocupada que só sabe ter quem tem dinheiro. Eu não tenho dinheiro. Mas sempre estive cercado de quem tem e eles, inacreditavelmente, parecem ter certo prazer em conviver com um duro. Muito se deve à precisa simulação de um desapego que não vem de outro lugar senão da necessidade, da falta de escolha ou do que me apegar. E o desleixo natural que a vida me obrigou a vestir é mais difícil de arrumar – no mundo deles – do que qualquer grife escalafobética.
Tenho que voltar para o subúrbio, mas vou dar uma esticada até o meu ponto preferido quando não quero pensar em nada, nem no nada que descansa a mente. Quero é pensar errado, para não correr o risco de reconhecer que a minha razão tem razão e me leve de volta a uma vida correta, mas que incrivelmente agora não me conduz a nada, só ao que já conheço, aos erros que não vou mais poder cometer. Odeio errar e ser reincidente, pois me dá a sensação de que fui incapaz de arriscar e de procurar uma nova vida. E aos infelizes de idéias irrealizáveis como eu, ou como nós, ter sucesso nas idéias não passa de um merecer o olhar condescendente de quem reconhece o mérito, mas não julga legítimo entregar o prêmio da glória senão aos feitos que lhe falam ao bolso, ao pau ou ao ego – três coisas que andam em baixa no meu mundo descaralhado.
