Será que dá para sorrir hoje?
Luciene Braga
Silêncio na cidade.
O intervalo dos blocos.
O som dos impostos. Das bolsas de apostas, do traçado das balas que deixaram as ruas proibidas.
Do samba triste vendido.
Do batuque que acorda o corpo.
Da roupa de praia cara.
Do cinema protegido das ruas.
Do tráfico e do tráfego incontroláveis e abarrotados de gente presa a poucos dotes e escolhas.
O barulho dos que deixaram a cidade em nossos ouvidos e sonhos menos lembrados, forçados a encontrar seus caminhos próprios por causa da dor. Quem pode deitar e gozar sobre esse mar?
Quem olha o Rio de dentro, de fora e por cima não entende imenso titã.
Um surdo triste, mas em anúncio, que chama em suspense.
Cada dia uma força pulsa a nos confundir sem deixar rastro, feito filme de cineasta opulento. Um David Lynch meio documentário, estrelado por uma popozuda moribunda, na trilha sonora de um violino em duelo com a escola de samba, e vem o executivo a pagar a moça, que corre para os braços de alguém que abraça. A criançada corre pelas ruas, cantando alguns versos que aprenderam como puderam. Os velhos de bermudas, as senhoras que cozinham temperos caseiros. E tem a disneylandia forjada da fama. O que é aqui a elite? O que são os modelos daqui?
Será que dá para sorrir hoje? De canto.
A estatística mais doída varre. E se desaparece num som nada bossa nova.
Sem certezas, o titã se ergue. Cada um que percorre ruas, monumentos, paisagens vivas ou não tenta atravessar e entender essa história.
Tem dia que eu desisto.
Mas outro vem.
