Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postA gravata de Chico

Tiana Maciel Ellwanger

Quando era militante e aspirante a revolucionário, Francisco bradava contra a gravata. Afinal, usar gravata no Rio de Janeiro era admitir, na própria imagem, a submissão aos países ricos e frios. Não mudara de opinião.

Certa vez, junto aos “amigos de luta” e com alguma cachaça genuinamente brasileira no sangue, levou um engravatado ao chão, na Rua da Carioca. Foi uma banda certeira, de que se orgulhou. “Seu merda!” “Fantoche do sistema!” foram algumas das expressões que usaram para humilhar aquele homem que, hoje, ao se olhar no espelho, lembrava ele próprio. Refazia o rosto apavorado daquele senhor, que urinava de medo de moleques que combatiam sei lá o quê. O quê? Alvos errados. Quanta enganação, jamais admitiria.

A gravata também remetia à figura de seu pai. Quando Seu Feliciano chegava em casa, afrouxava-a expondo o colarinho molhado de suor e respirava fundo como se quisesse recuperar o ar que lhe fora subtraído durante o dia. Sua mãejá lhe contara que, quando tinha uns sete anos, perguntou ao pai se usava gravata porque não podia se enfeitar como faziam as mulheres. Todos riram da história naquele Natal. Sentia saudades da mãe, mas foi um certo alívio não ter mais que cuidar dela como merecia.

Com alguma culpa pelo alívio que sentira, Francisco dizia para a sua imagem: 50 anos, quem diria. Era Verão, o vigésimo em que sofria com a religiosa gravata. Verão que parecia estar especialmente quente. No elevador, calor-assunto. Aquecimento global, dizia o vizinho. Ao chegar ao trabalho sem gravata, respeitando a decisão que tomara em frente ao espelho, foi saudado pelos advogados do escritório, que o intimaram para uma comemoração ao crepúsculo, e fizeram piadinhas sem graça sobre idade e aparência. Para sua surpresa, ninguém percebeu ou achou que deveria comentar a ausência da gravata. Decepção; já tinha preparado o discurso para justificá-la.

Ao receber o abraço de Jorge Gordo, lembrou que ele lhe dissera que gostava do momento em que sua mulher dava o nó. Mesmo quando estavam brigados, ela fazia essa gentileza, e seu cheiro, até hoje, o excitava. Preferia não ter tomado conhecimento da última informação. “Parabéns, doutor. Deve se orgulhar muito de sua vida, não é mesmo? Sempre brigando por um mundo melhor”, ao que Chico respondeu com um sorriso de paisagem.

O dia foi de reflexões sobre os muitos anos que passaram e com o que estava por vir. Havia pouco trabalho a fazer, melancolia. Entre uma ligação e outra, pensava na vida. Clichês? Uma lágrima desceu do rosto ao lembrar da mulher que traíra e perdera. Riu ao pensar na ex-amante, louca. Relembrou inultilmente as metas, inutilmente, para os próximos anos. Exercícios, mais leitura, cinema e viagens, frustrações, menos gravata e trabalho. Um filho para amenizar a dor com o que perdera para a violência no trânsito, há três anos? Maldita cidade. Jacinta, sua namorada de todas as noites, já havia sugerido a idéia, mas criar um laço eterno com ela lhe dava arrepios. Era eficaz para satisfazer o sexo e o estômago, mas tão boazinha que, às vezes, lhe provocava repulsa. 
  
Fim do expediente e sorrisos. Decidiram ir à champanheria das ocasiões especiais. “Na minha cidade, nunca poderíamos beber numa segunda-feira. Como amo o Rio”, disse o Dr. Bauru.

Bolinhas de sabão caíam do teto de garrafas quando a gravata surgiu como assunto. “Chico está sem gravata hoje. Que revolta é essa, Francisco?”. Questionou o Dr. Bauru. “Enfeite de merda, faz 40° no Rio e temos que usar isso? Cariocas de merda que há 200 anos imitamos os europeus, bando de colonizados”, bradou, lembrando os 20 anos. “Sabia que a gravata foi introduzida como hábito por mercenários croatas que lutaram na França? Gravata vem de cravate, ou croata”, disse o Dr. Conforme, na tentativa de apaziguar os ânimos. “Um brinde ao nosso amigo sem gravata”, sugeriu Jorge Gordo.

No caminho para casa, admirava o Pão de Açúcar que Deus não fez, porque Ele não existia. Dirigia mais rápido do que se estivesse sóbrio. Queria acelerar para sempre, o Aterro parecia convidá-lo. Mirou a talipot, aquela palmeira escolhida por Burle Marx que floresce apenas uma vez no ano para depois morrer, e decidiu ter o mesmo destino. Já havia florescido? Acelerou. O arrependimento veio com a dor, viu um farol na sua direção e a tontura logo passou para perda da consciência, que buscava.

Acordou, sabe-se lá quanto tempo depois, sentindo as pernas que já não conseguia mexer. Abraçado a Jacinta, de lágrimas e olheiras, chorou. Procurou, sem sucesso, a gravata ao redor do pescoço, que agora tinha um corte costurado por linha preta. Ela, a gravata, o teria protegido do corte e da burrada embriagada-melancólica que fizera, pensou antes de apagar novamente. Vamos, vamos para sempre, desejou, já sonhando. Acordou e chorou ao ver Jacinta, sem lágrimas, só-olheiras, esparramada na poltrona daquele lugar iluminado.

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10.03.09 em: Terça