As palavras
Aline Leal
Por amor, enfrentava o verão carioca que o fazia perder a vontade de viver; por amor, era secretário em um escritório de advocacia; por amor, matriculara-se em um cursinho de português em Londres e, finalmente, viera ao encontro de Rita. John não poderia ser acusado de ter um coração frio, tal qual imputam aos ingleses. Se é fato que a cidade do Rio de Janeiro não lhe despertava nenhuma emoção - ao contrário, irritava a sua forma mais íntima de ser - a vida aqui fazia sentido por causa do amor.
John conhecia o amor carnal, em que se iniciara com 15 anos, e o amor sentimental, que experimentara com Rita. Mas não todo o amor da vida dos cariocas. Não conhecia o amor que a ascensorista do elevador lhe dispensava: qual o andar, meu amor? Não se acostumava a esta relação. Desceu muitas vezes de escada.
Se em Londres as pessoas cuidavam para não exagerar nas demonstrações afetivas, os cariocas quase se forçavam a ser expansivos e sentimentais. Rita, no entanto, nunca lhe dissera que o amava, uma vez disse apenas assim: você faz o meu coração derreter. E isso para ele foi melhor que o amor.
John tampouco havia declarado o amor por Rita em palavras, aliás nunca na vida dissera eu te amo a alguém: à mãe, à avó ou ao time de futebol. Até então isso não fazia falta, mas agora John se perguntava se Rita sentia essa ausência. Só que o Rio de Janeiro lhe trazia questões e não inspiração.
Se era alguém desacostumado a enxergar sentimento, a multiplicação de expressões relacionadas ao amor, à paixão, e afins, lhe trazia desconforto e azia, como se pressionado a posicionar-se. Se custou pouco abandonar o que tinha em Londres por causa de Rita, quanto custava para teorizar um sentimento que era uma prática? Faziam sexo, dormiam abraçados e John comprava o anticoncepcional, preparava as torradas do café da manhã. Por amor, diria alguém da cidade para a qual se mudara, por amor; por amor; por amor.
Por amor à Rita trabalhava de terno e gravata em pleno verão carioca; por amor suportava um trabalho de atender a telefonemas e anotar recados e fazer e servir o café. Mas não diria eu te amo, não nesta cidade que ao contrário de inspirá-lo, causava repulsa à expressão deste sentimento. Talvez um dia, talvez em outro lugar, se fosse necessário dizer tais palavras, as diria sem senti-las, apenas por amor à Rita.
No quarto andar do edifício Avenida Central, a mando do chefe discou para a administradora do prédio, a quem o Sr. Eustáquio devia meses e meses de aluguel, e ia dar a notícia de que finalmente conseguira o dinheiro para pagar a dívida. Eustáquio pegou e telefone e disse “Gostaria de falar com a senhora Renha. Por favor, diga que é o amor da vida dela”.
11.03.09 em: Quarta
