Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postCantos revelados

Raquel C. de Medeiros

E aí ele apareceu com o sorriso que eu precisava para sobreviver. Era inteligente, engraçado e chegou de surpresa, convidado de alguém que estava na mesa e que eu não conhecia bem. Sentou-se ao meu lado, ofereceu-me um chope e eu aceitei antes mesmo de lembrar que não bebo. Olhei para ele e de repente me vi querendo ficar feliz.

Aquele início de felicidade confundia-se um pouco com um começo de paixão, mas eu não tinha certeza de nada. Ele falava comigo e com todos, olhava fundo nos meus olhos mas devia olhar para os outros também. A miopia ele tinha operado não fazia muito tempo, uma benção enxergar tudo tão bem: olha que beleza essa vista da Urca, não é seu Antônio?, e o garçom, seu amigo, concordou. Falou dos pássaros do bairro, da padaria do seu Zé, das caminhadas matinais. E não tinha nascer do sol mais bonito em toda a cidade.

E eu que nem me lembrava mais que o sol nascia fiquei paralisada pensando em o quanto os detalhes falam sobre a gente. Perdi-me na minha tristeza e só retornei à mesa quando o ouvi dizendo  que era um homem que gostava de cantos, por isso era tão apaixonado pelo bairro. E então eu senti uma pontada de saudade do meu pai, que também sempre escolhia os cantos nos restaurantes, nos bares, mas afastei o sentimento pedindo mais um chope, depois mais três. O moço continuaria falando da cidade, com uma poesia que combinava com aquela noite, com o vento da Urca, com o sal que nos abraçava. Diz a verdade, seu Antônio, há lugar melhor no mundo? Às vezes eu pensava em interrompê-lo e colocar alguns contrapontos que vinham me matando há alguns meses, mas a minha respiração ficava ofegante, eu abria a boca e me calava. Já leu o João do Rio?, perguntou, depois de saber que eu era estudante de letras. E citando o cronista, disse que as ruas do Rio tinham alma. Olha, essa aqui, por exemplo, é uma rua misteriosa, que precisa ser desvendada. É acessível para poucos, completei, e ele piscou, cúmplice. Estudante de letras… sussurrou, com admiração, puxando a esperança de uma alegria infantil que eu achei que nem existia mais dentro de mim. E eu já estava contagiada pela graça da vida quando apareceu a Bel, Você por aqui? E me abraçou com muita força. Eu sinto muito pelo seu pai, muito mesmo. Fiquei sabendo pelo jornal, a violência dessa cidade, né, tentei te ligar, você mudou de telefone? Estou quase morta também, quis dizer mas não disse. Quando a Bel se despediu, ele arregalou os olhos e, sem falar uma palavra, disse que também sentia muito. Parou de evocar as almas das ruas do Rio e pegou as minhas mãos geladas, embaixo da mesa: aquele seria seu canto preferido no mundo a partir daquele dia. E a poesia mais bonita da noite me devolveria as rimas que a cidade havia levado.

 

 

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12.03.09 em: Quinta