Faca suja
x Convidado Sábado x
Por Rozane Monteiro
Sabe aquelas manhãs em que você acorda e fica com um medo terrível de abrir os olhos porque tem a certeza absoluta de que fez alguma coisa de muito horrível? Aquela sensação de que, no barato, tinha dado algum vexame bêbada, do tipo chorar no bar, repetindo aos gritos que é uma miserável porque o mundo é muito, muito mau com pessoas sensíveis e brilhantes como você? Pois é. Era uma manhã daquelas. Ela abriu os olhos e passou dois segundos convencida de que estava cega. Mas o desespero passou quando lembrou que sua cama ficava num canto do quarto de seu apartamento na Urca, e que aquele branco que via era só a parede.
Mais calma, continuou encarando a parede por uns minutos, pensando na vida, lambendo as feridas como um gato atropelado, e pensando para que amigo-caixa-preta poderia ligar para descobrir que diabos tinha acontecido na noite anterior. A cabeça, claro, doía horrores e, na língua, um gosto azedo de vinho do Porto. Desviou os olhos da parede-amiga e conseguiu, sem se mexer ainda, ver que a fronha estava manchada de vinho: “Puta que o pariu, babei de novo”.
De repente, num flash, veio à sua memória a lembrança que imediatamente catapultou aquela à honrosa posição de pior ressaca de seus 36 anos: “Caralho, matei o Euclides”.
Foi só aí que ela teve forças para se virar e constatar, petrificada, que era verdade. Euclides, o amor de sua vida, estava ali na sua cama, nu, deitado de barriga para cima, olhos esbugalhados – como sempre –, com uma faca enterrada no peito. Aquela faca de cabo branco. A mesma que cortou o peixe que ela cozinhou com manteiga, alecrim e cebola para Euclides na noite anterior e que os dois comeram com arroz de passas num jantar regado a várias – muitas mesmo – garrafas de vinho do Porto, compradas depois de uma volta de bicicleta que ela deu perto de casa. Era sexta-feira de folga.
Convencida a, mais uma vez, tentar salvar a relação, foi ao supermercado, pediu que as compras fossem entregues em seu prédio, um antiguinho, na Avenida Pasteur, e convidou o tal para jantar. O peixe era um linguado, classificado por Euclides, quando provou, de “meio sem-graça”. Claro que não combina com vinho do Porto. Mas Euclides tinha essa mania de vinho do Porto. Qualquer coisa, vinho do Porto.
Isso tudo queria dizer que não havia amigo-caixa-preta para quem ligar. Num instante, ela percebeu que, pela primeira vez, tinha feito algo verdadeiramente horrível bêbada, e que não havia quem pudesse ajudá-la a organizar a confusão de flashes que, a essa altura, não deixavam mais nenhuma dúvida: ela tinha matado o sujeito. Por outro lado, dada a natureza das consequências de mais uma bebedeira, não haver testemunhas não era de todo ruim.
Ela ficou alguns minutos sentada na cama do lado daquele corpo. Chorava, chorava, chorava e sentia aquela pontada no ouvido direito. Nunca soube por que aquele ouvido que Euclides tinha deixado meio surdo com uns tapas durante a trepada doía sempre que ela chorava. Mas isso, claro, não tinha a menor importância naquela manhã. Naquela maldita manhã.
Finalmente, ela conseguiu sair daquela cama. Correu para o banheiro e vomitou, de quatro, a cara enfiada na privada. Levantou, lavou o rosto, escovou os dentes e se olhou no espelho. Os olhos inchados e roxos. Mais uma do Euclides? Não. Eram olheiras mesmo. Olheiras de uma, agora, homicida. Nunca tinha pensado em como seria a cara de um assassino. Agora, essa cara estava ali, no espelho de seu banheiro. Era uma cara de pavor. Ela era uma homicida assustada. E precisava de um café pretíssimo.
Voltou para o quarto e olhou de novo aquela cena estranha. Como chamar a polícia não lhe pareceu boa alternativa, foi para a cozinha e botou água para ferver – a cafeteira tinha quebrado. Pegou a jarra de vidro, o suporte para o filtro de papel, o filtro, o pó e, enquanto a água fervia, foi voando até a portaria pegar o jornal.
Subiu de volta já dando uma olhada na primeira página: a guerra de Baby Bush, uma crise de governo aqui e ali e um crime qualquer. Nem abriu. Sabia que não tinha nada que lhe dissesse respeito, e o jornal foi parar na mesa da sala. Também tinha a certeza de que, se a morte do fulano não estava na primeira página, era porque estava cedo demais para a imprensa já ter descoberto. Estava mesmo. O corpo ainda estava na cama, e a assassina ainda estava fazendo café. Por um segundo, lhe ocorreu que poderia ligar para alguma redação: “Foi mal, mas eu sou a primeira jornalista do-mun-do a saber que o Euclides foi assassinado com uma facada no peito, pertinho do Pão-de-Açúcar, tá? … Como assim “que Euclides?”. O Euclides, ué, o Cidinho… Assalto? Na Urca, aquele paraíso? Porra nenhuma. Foi passional. Tenho tudo. Vocês vão querer?” Claro que foi só uma idéia ridícula.
A água finalmente ferveu, e ela a despejou naquele totem jarra-suporte-filtro. Enquanto o café ficava pronto – a caneca já estava ali, esperando, com o adoçante –, ela voltou ao quarto e olhou de novo para a cama, lençol coalhado de sangue. Não que fosse a primeira vez que visse lençol manchado de sangue. Qualquer mulher já manchou lençol. Acontece na primeira vez, num fluxo mais intenso ou, no seu caso, quando o nariz sangrava demais depois de apanhar do seu amor. Quando acontecia, Euclides se irritava: “Tu não sabe nem apanhar.” O problema é que, naquela manhã, tinha sangue demais no lençol: “Ai, porra, deve ter manchado o colchão”.
Eram pouco mais de 11 da manhã daquele maldito sábado. Ela cobriu Euclides com um outro lençol, limpo, e foi para a sala. Colocou um CD do Sinatra aos gritos e sentou, paralisada no sofá, já com o café na mão. Por um segundo, achou que tudo era um pesadelo. Terminou o café e voltou ao quarto, por desencargo. Confirmou que o corpo, claro, continuava ali. Com a faca enterrada no peito, coberto por um lençol limpo, parecia um ser amorfo em plena ereção. Ela o descobriu, respirou fundo e, pronto: arrancou a faca. Aquela de cabo branco. Mas, como todo mundo sabe, faca suja, a gente lava. Correu para a cozinha: não era possível que não conseguisse deixar uma faca prontinha para ser usada de novo.
Ela achou estranho, mas, de repente, sentiu uma fome enorme. Abriu a geladeira e só viu três ovos. Lembrou que era a única com fome. Aqueceu a frigideira com aquela margarina de baixo teor de colesterol, bateu os ovos, picou queijo, salsa e cebola com a primeira faca que viu, aquela de cabo branco, e misturou tudo com um pouco de pimenta-do-reino e sal. O bacon, também picou com a faca de cabo branco. Lavou a faca de novo. Virou a mistura na frigideira e acabou abrindo uma cerveja. Deu uma relaxada, e a omelete ficou pronta. Serviu naquela travessinha que ganhou da sua mãe. Pegou duas torradas, espalhou cream cheese e sentou no chão da cozinha. Provou a omelete. Perfeita. A faca estava limpa mesmo.
Comeu, lavou a louça, terminou a cerveja e respirou fundo. Era hora de cuidar da vida. Da sua. Ela deu o jeito dela, arrastou Euclides até seu carro e o enfiou no porta-malas. Era sábado, não tinha porteiro, e, até hoje, ela não sabe como teve forças para carregar aquele maldito corpo – o porteiro sempre a ajudava quando tinha que carregar peso, mas, não, não era o caso. Finalmente, saiu dirigindo meio sem pensar. No rádio, o velho Sinatra, de novo: “I’ve got you under my skin”.
Resolveu seguir pela orla e, com uma tranquilidade sádica, resolveu testar a sorte. Achou, por milagre, uma vaga na Atlântica e parou bem em frente ao Copacabana Palace. Trancou o carro, atravessou a rua e caminhou um pouco até parar num quiosque. Tomou outra cerveja. Não pensava em nada, só olhava para o mar. No peito, uma absurda sensação de alívio e a certeza de que ninguém sabia o que tinha acontecido. Achava que, agora, estaria livre daquela maldição para sempre. E tinha a certeza de que só veria de novo o que restou daquele, digamos, homem, se ela mesma abrisse aquele porta-malas. Ela só não sabia que passaria o resto da vida abrindo e fechando aquele maldito porta-malas e dando de cara com Euclides. De olhos esbugalhados. Como sempre.
