Sem saudades do futuro
Luciene Braga
Do alto de uma bilionária estação orbital há exatos 17 dias, era só um astronauta, sem nome, sem passado. Todas as referências de seus 38 anos se dissiparam desde que rompeu as barreiras físicas e se lançou à missão. Estranhamente, descobriu-se desligado de tudo, de todos. Mulher, filho, pai, mãe, amigos, vizinhos, treinadores e qualquer daqueles que, de uma maneira ou de outra, restaram longe, apagados, minúsculos, sem qualquer importância.
Descobriu-se sem saudade.
Nem do futuro, pensava, nem dos motivos que enredaram toda a sua competente vida de oficial encarregado de cumprir e dar ordens em nome daquele projeto de fundamental importância para a pós-humanidade.
Não comeu nos últimos sete dias.
Numa cidade que só não era fantasma porque ele e seu colega transitavam, em silêncio rotineiro, para aprofundar os estudos que salvariam a humanidade, aguardava com tranquilidade militar a primeira entrevista coletiva ao vivo com a imprensa de todo o planeta.
Vestiu o traje espacial criado para impressionar, sentou-se ao lado do colega, que exibia um ingênuo olhar cúmplice, e esperou a primeira pergunta, depois que os jornalistas conseguiram se organizar entre crachás, câmeras, vaidades e microfones para conhecer e transmitir os detalhes iniciais da mais importante missão de estudo dos últimos tempos.
“Boa tarde, oficial. Aí é manhã, tarde ou noite no momento?”, perguntou um repórter renomado, tentando uma aproximação amistosa e sorrindo, poderoso. “O senhor poderia relatar como foram as primeiras experiências do estudo que vai orientar a ocupação de novos espaços do universo?”, e falou isso com um tom profético, mas cético, profissional que era.
Suspirou e encarou a câmera, fitando o amplo auditório reservado à imprensa especializada. Demorou um pouco a responder e ponderou, paciente: “Como você, meu caro, selecionado entre muitos para a missão de fazer essa entrevista, eu me senti honrado por ser designado para essa missão e me preparei de forma séria e obstinada. A propósito, aqui não tem manhã ou tarde. Só noite”, e baixou os olhos, visualizando o grande painel criado por outros especialistas predestinados a escrever história.
“A primeira experiência é que, ao chegar aqui, fiz uma grande descoberta”, disse isso ao mesmo tempo em que se levantava, e as câmeras inteligentes do compartimento da estação o seguiram. Começou a despir-se do traje espacial e ficou inteiramente nu, ao vivo, do universo para a terra. Sorriu, seguro como ator experiente.
“Não foi um prazer”, terminou, sorrindo, e deu início aos procedimentos técnicos que destruíram, em segundos, a estrutura do complexo orgulho mundial.
Não viu motivos para sentir saudade, nem mesmo do futuro.

Adorei o texto, amei o final! “Não foi um prazer”, “Não viu motivos para sentir saudade, nem mesmo do futuro”. Muito bom.
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muito bão. o fim é sensacional. agora, melhor do que a ausência de saudade do futuro, só a descrição da chegada dos “colegas” à coletiva. adorei o “entre crachás, câmeras, vaidades e microfones”, com destaque ao “vaidades”.
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fueda.
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Oi, Luciene, li só agora e adorei o texto – desde o título até o fim. Um homem indiferente ao “futuro” (o seu, o da humanidad…- é isso?)
Enfim, parabéns.
beijos, Aline
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Que doidura esse texto!!!! Adoreiii srsrs
Minha parte preferida : e baixou os olhos, visualizando o grande painel criado por outros especialistas predestinados a escrever história.
Parabéns garota.
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