Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postSaudades e nada mais

Tiana Maciel Ellwanger

Pela primeira vez na vida, sentia saudade. Não saudade das pessoas. Estas, ou algumas, lhe fizeram muita falta quando, por um motivo qualquer, não eram mais encontráveis ao surgir nas boas lembranças. Sentia falta, como nunca, era dos tempos idos, de vários deles, da falta de dor e de paciência. Queria de volta o andar firme, a autoconfiança, a transgressão. 

Seu corpo o aprisionava, sentia-se num casulo, num escafandro, sob uma casca enrugada. Se soubesse que o corpo era tão importante, talvez tivesse exagerado menos. Não. Provavelmente não. Gostava de transpor limites, todos que fossem. Não poderia ter sido diferente.

Nunca gostou de nostalgia, mas definia-se, agora, como um nostálgico pessimista. Por ideologia, costumava brincar, não ia a encontros que tinham como único objetivo relembrar, escolher momentos bons e engraçados, não necessariamente os mais importantes, de tempos que não voltam. Ainda bem que não voltavam.

O presente costumava ser sempre melhor. Detestava os saudosistas, os que se recusavam a seguir, a experimentar e a fazer do momento presente o mais interessante, o mais saboroso, o mais próximo à música, à poesia, ao non sense. Mas agora era como um espelho das pessoas que detestava. Detestava-se.

Ah, a memória… Essa sim deveria ter preservado mais. Queria lembrar dos momentos exatamente como eles foram, não de flashes e de situações que se misturavam nos anos, nas mesas, nas luzes e cores, nos cigarros, nos vinhos e rostos. Nas conversas tão longas, tão cheias, tão vazias. Talvez devesse ter escrito mais. Documentado mais. Talvez não.

Era egoísta. Faria de tudo para manter a vida, esticá-la como era a sua pele há 50 anos. Venderia, pela imortalidade, a alma ao diabo, que não existia. Por isso amava Dorian, o Gray. Nem ler conseguia como antes. A tonteira era vertiginosa. Se pudesse, espalharia os labirintos pelos anos, por que todos agora?

Ver os netos adultos, os bisnetos aos gritos, e saber exatamente o que importava lhe dava certo ânimo, é verdade. Mas não aquele que faz valer à pena. Que faz esquecer, mesmo que por alguns minutos ou horas, dos momentos de euforia, de entusiasmo, de intensidade, de pavor. Dos seus momentos, não dos momentos dos seus. As referências eram amplas como nunca e, por isso, fazia conexões quase o tempo todo. Os minutos antes eram tão melhores dos que os de agora. As horas costumavam ser incríveis. Passar pelo tempo costumava ser bom. Não é mais.
 
Não gostava de esperar, mas hoje parecia apenas esperar o que ficaria cada vez pior. Sabia que a morte chegaria. Nunca teve problemas com o fim. Só quando precisava consolar os amigos e os irmãos. Mas aceitar a morte, acatá-la, acolhê-la, consenti-la, juntar-se a ela, não. Isso não. A idéia de acabar era insuportável. Ver seus amigos acabando era insuportável. 

Os toques em sua pele e cabelo eram cada vez menos freqüentes e ligeiros. O paladar não era mais agradável. As texturas, menos doces. As cores, essas, ofuscavam mais do que gostaria. As linhas estavam de manhã menos definidas do que eram à noite, em seus sonhos. O mundo estava mais distante. As conversas já não faziam tanto sentido. A irritação com os autocentrados, solitários e rasos só crescia. Eles pareciam estar em toda a parte agora.
 
Sua vida seguia devagar demais, sem controle, com dor e tédio. Sentia saudades e nada mais.

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17.03.09 em: Terça