Saudade de amar
Raquel C. de Medeiros
E eu, que nem bem te conheço
E já adoeço com a falta do seu beijo
Que me promete ondas no chão
E eu, que vivia em suspenso
Entre asas, sonhos e ventos
Entro em ti feito brisa-lilás
Pintando a sombra do seu pensamento
E eu, que nem bem sei rimar
Já pressinto versos sorrateiros
Despencando como gotas de chuva
Das noites que prevejo no fundo do seu olhar
E eu, que sou prosa, que sou livre, escorrego na certeza prematura dos poetas, adivinhando a métrica exata do nosso amor. E deixo-me ser conduzida pelas suas mãos quentes que ainda nem toquei mas já me surpreendem. E então vejo-me sem fome, deixando os pastéis esfriarem na mesa do bar porque você me transforma em nuvem, em perfume de angélica, em chá de framboesa adoçado com mel. Em palavras-gostosas-de-ouvir: açucena, poção, lima. Candelabro. E suspiro antes de voltar a te inventar, flutuando na graça do soneto que encenaremos ao vivo na web. Então pressinto uma saudade doída do seu abraço que contorna a minha escrita: já não sou mais pura-prosa, doo-me a qualquer verso que tenha algum traço do seu olhar, algum ensejo do seu beijo. E ao teu lado, amanheço assim, poema-em-prosa de amor (publicados em livro para não apagar mais). E anoiteço no meio do chá da tarde, só pra te trazer pra mim, meu possível amor.
19.03.09 em: Quinta