Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postIt’s only rock n’ roll

x Convidado Sábado x

Por Marcio Betancourt de Mello

De repente só vi o prato da batera voando nos cornos do Tony, o contrabaixo dele (um Fender igualzinho ao do Jaco Pastorius, que ele idolatra) caiu no chão, fez um puta estrondo… e rachou o braço. Porra, aí que ele surtou de verdade. Um JazzBass legítimo, ainda mais fretless que nem aquele, de 1960 e poucos… caceta, vale uma grana fortíssima. Foi o investimento da vida dele, como músico. 

 O troço caiu no chão e as cordas ficaram vibrando descontroladas, uma barulheira daquelas. E foi só o começo, claro, porque aí o Tony pulou pra cima do Jonas, derrubou tudo: tons, bumbo, caixas, surdo, chimbau… cagada completa.

Sorte que era ensaio, a bateria era do estúdio, porque também se fosse na Pearl do TOny, quero nem ver o resultado. Ele montou a dele com um set igual ao do Neil Peart (que ele idolatra, todo mundo na banda idolatra alguém, menos eu), também custou uma fortuna. Aliás… sorte que eu só canto, não preciso de nenhuma dessas frescuras.

Tem outras frescuras, claro, tive que largar o cigarro – e os etcéteras, também, se é que vocês me enten¬dem -, não bebo nada gelado… aí, como cerveja quente é horrível, eu vou no uisquezinho, mesmo. E cowboy, porque gelinho de água de coco é coisa de dá-cu.
 Então… onde é que eu tava?

Ah, tá, o Tony pulou em cima da batera e os dois se embolaram no chão, foi aquela cena constrangedora. Principalmente porque as namoradas dos dois tavam no estúdio. E aí é foda, que na frente de mulher todo mundo quer posar de machão.

Só que em vez de trocarem logo umas porradas honestas, de arrancar sangue, não… as duas bichinhas ficaram numa agarração, um tentando estrangular o outro, essas coisas de jiu-jitsu. O cara do estúdio tentou apartar, claro, por causa do equipamento, que tava sofrendo as consequências daquela palhaçada.
O motivo? No mínimo, você deve estar pensando que um comeu a mãe do outro, que deu chumbinho pro cachorro, qualquer coisa assim. Nada. A porrada estancou por causa de uma mísera paradinha que o Jonas queria fazer na música. E o Tony sempre entrava com um fraseado, como se o batera tivesse parado pra ele fazer um solinho. Briguinha ridícula de ego, mesmo, não tem outra explicação.

Lembrei da primeira vez que eu vi os dois se estranharem enquanto tocavam, num ensaio, também. Virei pro Arnaldo, nosso guitarrista/compositor e falei: ‘Po, temos Ginger Baker e Jack Bruce na banda’, ele riu muito e emendou: ‘Ou seja, vamos fazer um som fodão, mas… vai ter vida curta’. E foi mais ou menos isso, mesmo.

Tanto Tony quanto Jonas tocavam pra caralho e meio, tinham um entrosamento monstro… mas pessoalmente, se detestavam. No nível físico mesmo, de a presença de um incomodar o outro. Quem chamou os dois foi o Arnaldo, e eu bem que falei que ia dar zebra. Era óbvio desde o primeiro ensaio. Só não viu porque não quis.

Aí, faltando duas semanas pro show, dá essa merda. Ninguém merece. Eu saí de perto, vou fazer o que? Me meter no meio pra separar? No cu, pardal, não sou otário. Já me ferrei bonito tentando fazer esse tipo de coisa num show, uma vez… tomei uma garrafada no meio da testa que me deixou até cicatriz. Depois dessa, nunca mais.

No calor do momento ali, ainda virei pro Arnaldo e falei na lata: ‘Não vou pagar nada disso’. Os caras tão lá quebrando centenas de dólares de equipamento e eu que não tenho nada com a história vou rachar o preju?

Como quarentões sedentários e biriteiros com os pulmões cheios de fumaça não tem muita disposição pra ficar rolando no chão brincando de vale-tudo, os dois logo pararam. Aí, foi aquele climão pós-briga. O Arnaldo querendo bancar o deixa-disso, lembrando que o tal festival de rock tava chegando, e a gente precisava se esforçar… e eu estourei.

Sei lá o que houve porque, na verdade, a banda era do Arnaldo, as composições eram quase todas dele (tirando uma ou outra do Tony que o Jonas levava na maior má vontade). Sei que eu falei meia dúzia de desaforos, que eles eram moleques, e que eu tava de saco cheio daquilo, e que eles podiam ir pras suas respectivas casas que a gente ia chamar dois músicos de estúdio mesmo pra acompanhar no show.

Não seriam geniais mas foda-se, pelo menos a gente não precisa ficar no palco se preocupando se um vai voar no pescoço do outro. Pra minha surpresa, o Arnaldo topou a idéia. Aí que os dois viram o tamanho da besteira. Em vez de simplesmente pedirem desculpas, não, um começou a jogar a culpa no outro. Gritei de novo, mandei caírem fora, encheu o saco aquela picuinha. E eles saíram. Agora, é catar os substitutos.

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21.03.09 em: Sábado