Página virada
Luciene Braga
Mundo jegue. Era assim que sentia.
Feito gari, ele se pôs a fazer a limpeza sem ser percebido.
Recolheu todos os papéis da mesa. O retrato de seus colegas ele jogou na lixeira sem se preocupar com os olhares. Até riu, aliviado.
Como naqueles momentos em que você percebe uma barata na cozinha, sem que ela faça qualquer movimento, foi atraído pela visão do chefe em sua sala de vidro (e salas de vidro são por demais temporárias).
Cutucou nele a empáfia relegada aos sonhos e pesadelos. Era aquela a hora. Irrompeu com vidro e tudo, apressado. Olhou o ex-superior, agora ainda mais, nos olhos. Desafrouxou a gravata cinza.
E diante da estupefação do homem hipertenso, viu que era tarde para heroísmos ou flashes de comemorações marxistas. Feito gari, agradeceu. Deu lembranças. À família. E à secretária. Falou que “qualquer dia…”.
Sem ter para onde ir, vagou naquela noite, não sem antes livrar-se da caixa, quase vazia.
Nas cercanias, ninguém sabia o nome dele, impronunciável. Era conhecido por ter surgido do nada e acreditavam mesmo nisso. Não tinha expressão. Mal se viu músculo se mover na face, quando toda a gente do bairro sofreu com a morte de seu Carlos Pipa, um papai noel do bairro, atropelado pelo motoboy estressado, diante das crianças que, avisadas da saída do homem vestido assim, correram para assistir.
Ele achou até graça. Teve de se segurar para não rir.
Celular tocou. Um amigo contando suas aventuras invejáveis. O relógio da sorte não colaborava. Bebeu um cognac, enquanto fingia ouvir. Sem tempo para elaborar teses sensatas.
Na sábia ignorância de quem perde o chão, lembrou-se que, da última vez, recolheu-se na companhia de uma mulher paga. Foi bom. Sabia que não teria despedida. Era chegar e partir, como se nada tivesse ocorrido. Nem pensou em avisar a sua, em casa. Era mesmo hora de ir. E decidiriam hoje a cor das cortinas do quarto. Como se reparasse…
Foi, com seus sapatos sem graxa. Pronto para virar uma, duas, mil ou mais páginas.
