Querida irmã,
Tiana Maciel Ellwanger
Para você, na hora do jantar
Sabe irmã, escrevo porque preciso cuspir. E quero cuspir em você. Cuspir o que há aqui, em minhas entranhas. Minhas vísceras, elas mesmo – menos que o coração e o cérebro -, pedem que cuspa.
Que jogue tudo para fora,
agora.
Você quer ler?
Quer ler o que cuspo?
Adoro a crise, sabe?
Se está revoltada,
já no começo o que digo,
melhor parar.
Pare, como o Mundo está a estacionar.
Pare de ler e olhe teu umbigo,
lindo.
Você não tens tempo, não é? Na verdade, não gosta de fazer o que gosta e arruma desculpas. Descalabro.
Continue então com suas lamentações,
mas não leia, cara irmã.
Aqui não vai achar
do que se lamentar.
Não estás satisfeita a vomitar reclamações naqueles que diz amigos? Amigos que você preenche e cospe
e chupa
e cospe,
e preenche com cuspe.
Mas já te digo, digo logo. Vai atrasar suas tarefas, seus deveres. Teu dever. A cumprir. Naquela lista.
Deves mesmo?
Para quem?
Sabes que Deves somente a tuas desculpas, a teus desapegos e a teus poréns. Não diga o contrário porque não acredito.
Queres dizer Não e inventa, tormentos, sem virtude, sem Honestidade.
Queres paz não é, que paz queres? A paz mundial das misses, é essa que queres. Ingênua é você, irmã.
Hipócrita é você, irmã.
E explico de uma vez o que isso tema ver com a crise: sei que seus trabalhos diminuíram. Que já não é mais tão ocupada. Que está prejudicada.
Sempre estivera sem tempo, não é mesmo?
Trabalhar trabalhar e trabalhar
para mostrar e
se ausentar.
Agora tens tempo, mas continua ausente dos que te amam e, por isso, compreendem. Eu não, não mais.
Cansei de não mostrar e por isso ter de ficar,
e cuidar, enquanto tu estás a não trabalhar, a inventar.
Falo também da tua vida. Por que não? Ainda podes mudar.
Queres moral e cívica de um lado. E arte do teu lado? Dá não, irmã, não dá.
O que queres é continuar,
sem pensar.
Queres se acostumar,
acostumar.
Só levar.
Sem se dar.
Falei que era melhor não continuar.
Não quero teu conforto,
quero teu pesar.
Quero teu enlouquecer.
E teu sangue.
Continue que piora,
embola.
Quer embolar?
Ah! A crise, a tua crise, faz parar.
Desacelerar.
Menos é mais, ainda não percebeu?
Quer mesmo é voltar ao teu jantar, não é?
Janta teu papel de manteiga sem gordura. Acredita mesmo que manteiga não tem gordura? Come logo e depois diz ‘novela chata’, por que estás a continuar? “Sai Naná”, vamos espiar. Continues vendo sem ver.
Não, não faça isso, irmã. Venha comigo. Sei, no fundo, que quer parar. Eu também.
“Porque só voa quem sabe pousar”, a lembrar.
E se coragem tivesse, sairia agora daí e ia arrumar. Arrumar um jeito de não estar onde estás.
E nunca mais voltar.
E depois voltar, porque Nunca o nunca preverá.
Fique a parar para depois, só depois, voltar a voar, porque esse texto mudará. Dependerá do jantar, do seu jantar.
Com amor, muito amor, do seu irmão
Augusto
