MeninaMázinha
Raquel C. de Medeiros
Que cansaço dessa gente que se leva muito a sério, essa gente sem humor que morre com cada página amassada de seu diário sem cor. Essa gente que aponta com satisfação o erro alheio, que cria grandes dramas com pequenas falhas dos outros para assim sentirem-se superiores. Que preguiça do poder em mãos pouco generosas. Às vezes tenho o impulso de me revelar e te mandar à merda, mas me contenho porque você não merece me ter muito tempo por perto. Tu nem imaginas mas rezo diariamente para que eu encontre uma porta que me leve para longe desse seu olhar pessimista. Daqui a pouco é adeus.
E às vezes somos obrigados a engolir a deslealdade até de amigos muito queridos. Dói, viu, amar, cultivar uma amizade e quando você precisa do mínimo, esse gesto não vem. Não vem e a gente começa a repensar tanta coisa que os sentimentos se embolam. Vale a pena relevar? Vale a pena continuar cultivando esse amor? Vale a pena continuar pensando nisso? Eu quero mais é um travesseiro que me dê um bom sonho.
E às vezes somos obrigados a sorrir de coisas que a gente não concorda. O que será que nos custa um sorriso sem alma?
Você tem pensado em mim mais do que deveria. E por que será que isso me deixa feliz?
Você foi leal na deslealdade e sim, eu concluí que isso é possível. Pediu-me perdão, confessou o que poderia ter omitido, mas eu não gostei, não mesmo. Pode deitar e dormir em paz, mas o que eu faço com você agora?
Eu te admirava pela metade. Mas hoje ainda menos que isso.
O tempo em que nem as coisas felizes faziam mais sentido passou. A alegria chega, me abraça e eu a acolho freqüentemente. Embriago-me com ela, fazemos poesia e rimos bastante. Louvamos a vida, a família, os amigos, o aconchego de casa, uma bênção. Deitamos juntas e o resto é mel, sombra de pétalas, ritmo encantador. Mas às vezes, olho para ela (a alegria) e a acho parecida com você. Levo susto, acho que estou sonhando e percebo que sonho foi você. Graças a Deus.
Tenho uns segredinhos que ninguém sabe. Alguns arrepiantes. Outros inspiradores.
Não quero ficar presa no seu baralho. Não venha querer me ler, pois.
Você um dia vai pensar “por que não a recebi com mais carinho?” mas não vai dizer. Isso vai martelar na sua cabeça com grande freqüência. Nesse dia eu já terei encontrado aquela porta e não vou nem mais lembrar da sua desprezível existência.
Estou aprendendo a ser mázinha quando preciso. Tenho que praticar para melhorar cada vez mais.
Sentiu cada letra entrando afiada pelo seu peito? É por isso que escrevo: para imaginar o seu sangue escorrendo pelo chão que inventei.
Sabe que agora que matei uns cinco com minhas letras sinto-me melhor?
26.03.09 em: Quinta