Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postAntes da crueldade

Tiana Maciel Ellwanger

            Mais um aniversário. Foi ao bar, o mesmo de sempre, na esquina da rua em que morava com a que gostaria de morar. Praia, gostava do cheiro. Há cinco anos, decidira passar esse dia estranho ali, naquele bar, com quem quer que fosse ou chegasse. Às vezes, alguém ligava, alguém dos tempos em que os brindes à vida só acabavam de manhã, e aparecia. Bom. Sem expectativas, boas surpresas. Os de sempre, sempre.
           Ao sentar à sua mesa preferida, arejada pela brisa e pelas conversas apuradas pela água salgada, pensou que ela poderia vir. Ela mesmo, Ana, Ana Paula. Adorava vê-la, bem ali, a seu dispor sem dispor. Ela geralmente sentava-se e gargalhava, com as amigas, uma ou duas no máximo. Vez por outra, deixava a carteira ou a caneta cair no chão ou no colo. E seu tom de voz aumentava conforme subia o número da caipirinha.
            Chegou João, o amigo albino e insone. ‘Acordei e vim direto porque sabia que estaria aqui, Camuru. Chegou aos cinqüenta, hein’, disse dando tapinhas nas suas costas. Só os amigos de bar o chamavam assim, tudo por causa de uma antiga história, muito longa para esse texto. ‘Pois é, companheiro, mas está tudo funcionando melhor do que esses garotos aí’, apontou para os dois corpos que passavam, com suas pranchas, vindos do mar. Enquanto sentava, João não achou que seria engraçado dar um ponto na piada ruim. ‘Não foi isso que sua ex-mulher me disse quando a vi na praia na semana passada’. Rostos sorridentes, sem graças.
           Chegaram Augusto, Cosme e Gilberto, entre intervalos pontuais de meia hora. Os pauzinhos de chope, anotados na toalha da mesa, formavam vários quadradinhos riscados. Começava a hora preferida de João, ele costumava dizer. Noite de acordar, os de pouca roupa voltavam para casa. Conversas inspiradas naquela lua. Futebol, mulher do portão verde, mulheres, piada de e-mail, vídeo na Internet, diretores do Senado, mais mulheres, show do Rolling Stones, viagens, crise, emprego, Igreja, histórias, opinião, idéias e idéias. Em ordem crescente: pessoas, fatos e idéias.
          As vozes ficaram inaudíveis. Era ela, Ana, Ana Paula. Estava mais bonita do que em suas fantasias. O vestido branco acentuava o colo de açaí. Cinematográfica. Ficou nervoso, mais do que nos outros encontros-sem-palavras. Seria naquela noite, falaria com ela para jantar. Ela o cumprimentou com os olhos, baixos, e sentou de costas para ele, de frente para a amiga sem sol. Bonita, mas Sem Sol.
         Para não te tomar muito tempo, você que já quer saber logo o que vai acontecer com Jonas Camuru e Ana Paula, vou pular uma parte do que aconteceu naquela noite. Eu gosto dessa parte, mas sei que você não quer deixar essa história para o depois-que-nunca-chega. Então, como estava dizendo, Ana estava linda que linda, sorridente e com calor. Sua voz era de mulher grave, daquelas que degustam e querem. Mas naquela noite, Jonas lamentava, não havia conseguido ouvir nada mais íntimo, pena. Melhor.
          O que importa é que Jonas colocaria seu plano em prática, naquela noite. Singular. Só se Ana chegasse com decote. Internet lhe disse que mulheres, quando decote, querem ser desejadas. Babaquice. Regras, para ele, necessárias: se decote sim conversa sem decote não. Disse aos amigos que iria para casa, tinha alugado filme, queria assistir, aniversário. Eles, surpresos, então também iriam. A primeira parte do plano tinha dado certo. Foi para casa e pegou a rosa branca que tingira com água de guache vinho e caqui.
          Voltou ao bar e sentou, ao lado dela, em outra mesa. Ana reparou a flor e olhou com curiosidade. Perguntou se Ana e a amiga lhe dariam o prazer de aceitar uma caipirinha de kiwi como presente de aniversário, do seu. Sem Sol disse que sim e perguntou seu nome. Jonas. Ana respondeu que só decidiria quando acabasse a que bebia. Esperaria, com e sem prazer.
           Chope mais. Silêncio e garçom falando. Duas ou três páginas do jornal dos da praia. Caipirinha acabou e Ana: ‘Para quem é essa flor?’. ‘Para você, Ana’. ‘Eu não te disse o meu nome’. ‘Mas eu sei. Sei que você além de linda, é atriz e estás a buscar’. ‘Não estou entendendo’. Sem Sol levantou para banheiro. ‘A minha já pode trazer’, garçom. ‘A minha também’, disse Ana, olhos pasmos.
           ‘Sabe Ana. Há muito tempo te admiro, voz sorriso cabelos e lábios. Histórias e algumas opiniões. Não sei se deveria falar o que estou a dizer, não foi planejado. Teria que ser hoje, Ana, Ana Paula. Vou ser sincero, honesto. Poderia perguntar o seu nome e o que faz. Poderia perguntar se mora aqui perto, como se não soubesse. Mas sei, Ana. Sei que passou por maus bocados no mês passado. Sei que está sozinha. Sei que queres um homem sem mentiras. Sei porque ouvi, Ana. Ouvi querendo ouvir, mais’.
‘Você não tem vergonha de admitir isso, Jonas?’
‘Tenho não, Ana. Quero você, sabe? Quero te abraçar, quero te dar essa flor, Ana. É para você, como todas as que comprei e murcharam na água do único vaso que tenho’.
‘Jonas, estou bem surpresa com o que diz. Achei que só eu ouvia demais. E já que é assim, para ser honesta, eu também sabia que seu nome era Jonas e que te chamam de Camuru. Sem descobrir. Separou da mulher porque ela quis e voltou à mãe. Não faz mais festas de aniversário desde a morte dela. Sei que está saindo com uma mulher mais jovem e que não é apaixonado por ela. Até que você esteve com uma mulher da vida, há dois anos. E acha que a mulher da casa com portão verde deve surpreender na intimidade. Você não queria que ouvisse. Percebi pelo tom de voz quando conversava com aquele seu amigo, albino, mas ouvi. Sei também que ama o Tarantino. Eu também amo”.
          Você que já não quer mais ler, vou contar só mais uma coisa, e depois outra: Depois daquele dia, eles ficaram três seguidos sem se desgrudar. Duas casas, dois prazeres. Depois, muito depois, vieram alguns palavrões, ainda com carinho. São um casal ajustado, mas parece, só às vezes, torturar um ao outro. Palavras fortes dizem.
         Eles costumam nos convidar para jantar em sua casa depois que nos mudamos. E é por isso que sei essa história. “Não é um romance, é uma história”. Só para terminar, Jonas descobriu naquela noite que Ana só dormia de bruços. E que gostava de carícias. Ana também se surpreendeu: ele tinha um espelho no teto. Aquela noite foi a mais decisiva de suas vidas, dizem. A história, já ouvimos várias vezes, com nuâncias diferentes. Seus rostos se transformam quando contam. Se abraçam. Como se quisessem resgatar aquela noite, no bar, na casa, na cama, no espelho. Antes da crueldade.

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31.03.09 em: Terça