Santinha
Aline Leal
Quaisquer que fossem as superstições consagradas e disseminadas, tinha, ela mesma, uma maneira própria de agir sobre a realidade. Sua mãe dizia: não deixe a bolsa no chão que não entra dinheiro; ela abria a carteira, espalhava as notas em cima do tapete, salpicava as moedas enquanto soprava entre os dedos, soltava uma bela cusparada e pisava em cima. Pronto, seria rica. Se não funciona, mal não faz, pra que desafiar, Santinha?, a mãe perguntava.
E, um belo dia, Santinha pegou paixão. A menina dorme sem calcinha no outono, o beija-flor mensageiro amarra, a mãe disse. Mas Santinha quis continuar fiel ao seu método. Esconderia o telefone embaixo da bunda, e ele iria telefonar; comeria três páginas da revista, e ele iria convidá-la para sair; daria dez tapas fortes na própria cara, e ele estaria pensando nela.
E, um belo dia, Gerardo chamou-a para conhecer o seu apartamento. Pega um sapo na lagoa e deixa três dias boiando no tanque, rouba uma cueca suja do menino, passa um cafezinho nela pro sapo tomar, depois frita o sapo e come, disse a mãe. Santinha subiu ao apartamento de Gerardo, entrou no quarto, tirou a roupa, esqueceu o pudor, entregou o corpo, sumiu por três dias.
Quando voltou, magra e pálida, a mãe disse: vamos lá no paizinho. Santinha foi. A menina tá amarrada, passa três dias na casa do homem, e o homem não quer compromisso. Não pede a mão pra mim nem pro pai, a mãe disse. Paizinho olhou pra Santinha, os olhos emitiam o diagnóstico: E então, menina, quer se desamarrar ou amarrar o homem? Amarrar o homem.
Pega três baldes da água do mar, coloca na banheira com mais três xícaras de açúcar de rapadura e três canecas de milho pra pipoca. Deixa a água três dias de molho na banheira, e toma a água todinha depois, o paizinho receitou, e o homem pede a mão de Santinha. Deus lhe abençoe, disse a mãe.
Santinha preparou todos os ingredientes na banheira e por três dias ficou boiando na água, mesmo a receita não recomendando. No final do último dia, a menina puxou a tampa do ralo e a água escorreu de uma vez da banheira. Mas era pra tomar a poção todinha, Santinha, disse a mãe.
No mesmo dia, Gerardo bateu na porta da casa, alianças no bolso, que queria se casar com a menina, disse à mãe. Deus abençoe o paizinho, e Deus lhe abençoe, Gerardo. Foi chamar a filha. E ela disse que não entrasse, que não queria vê-lo nunca na vida, que morresse, que não iam se casar, que nem sonhasse com ela, que não, não e não.
Está louca a menina, volte outro dia, que a mão é sua, disse a mãe, e voltou para o quarto. Santinha disse que perdeu paixão, que não seria mulher dele, que não se casaria nunca, que não e ponto. Então dê a ele chá do canarinho dá-adeus, camomila, arruda e cardamomo, que desfaça o feitiço, menina, disse a mãe.
Santinha fez o chá à sua própria maneira: capim-limão, açúcar de rapadura e arsênico, e levou dois bules para o apartamento de Gerardo, um batizado, o outro não. Entrou na sala, sentou-se à mesa, serviu o chá, tomaram. Que não se casariam, que não se veriam nunca mais, que nunca mais iria encostar um dedo nela, que nunca chegaria a conhecer o filho que estava em seu ventre, que não e era isso e ponto mais que final, Santinha disse, sentiu-se tonta, caiu no chão, aos poucos lhe faltava o ar, e deu o último suspiro.
