Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postBipolar

Aline Leal

       Ela tacou-se no chão, caiu, estatelada, revirou os olhos, uma espuma aguada saiu de dentro da sua boca, disse qualquer coisa com a voz trêmula. Fiquei um pouco preocupado, mas não pude bem entender, e então ela soltou uma gargalhada quebrada, contraindo com força o abdômen. Estava fingindo para se divertir; era mesmo um pouco engraçado. Pedi para que se levantasse porque as pessoas do restaurante estavam olhando.
       Anna, que louca! Um dia escreveu-me uma carta com uma palavra que eu não sei bem como pôde atribuir a mim. Um sujeito rajadinho, e depois não quis me explicar, riu bem alto, jogou a cabeça para trás e fez cara de louca, que era. Eu às vezes achava que, por trás de toda aquela encenação que Anna montava para se divertir, estava uma menina na verdade bem abafada.
        Senti isso quando fomos à praia num dia nublado. Ela não disse nada o caminho todo, mas parecia como se tivesse uma coisa bem enterrada no corpo. Eu não perguntei porque sabia que ela ia inventar alguma história engraçada, e acabar rindo alto. Tirou a roupa e jogou-se no mar assim que chegamos; pulava as ondas gritando desesperadamente em meio a um choro soluçante de agonia, como se vomitasse um fígado. Depois, perguntou-me se eu também tinha achado aquilo engraçado.
        Eu não sabia qual era a verdade, nem o que preferia. Se louca, se triste? Hoje, tentei puxar um assunto sério; percebendo os indícios, Anna tacou-se no chão no meio do restaurante, babou-se toda, e acabamos rindo. Eu ia perguntar quantos namorados ela já tivera, se estava feliz saindo comigo, se queria ficar mais sério. Mas tudo acabou muito engraçado.
       Eu não estava apaixonado, mas me convinha muito sair com Anna. Me fazia uma boa companhia e ultimamente andava muito sozinho. Ela, ao que me parece, tampouco era de muitos amigos, porque as pessoas sobre quem me falava pareciam fantasiosas demais para ser verdade, e vez ou outra percebi ela embaralhando as histórias.
        Outro indício que tive de sua profunda tristeza veio de uma folha de caderno que encontrei amassada no banco de seu carro há algumas semanas e que li enquanto ela comprava cigarros no posto. Era algo que ela tinha escrito:

       Meu amor (eu nunca disse eu te amo), sua frieza queima em minha garganta. Não existe, não existe mais isso e eu tenho que me conformar. Você não foi uma boa experiência e não terá sido bom ter conhecido você quando a gente terminar. Eu só perdi o meu tempo.

       Quando chegou a conta, eu disse que deixasse comigo, afinal, ela devia guardar o dinheiro para cuidar da saúde, fazer uns exames depois daquela crise, eu complementei a brincadeira. Ela não riu porque não ria da piada dos outros. Fez cara séria e começou um discurso bem melodramático: que eu não lhe dava o devido valor, que eu nem sabia quem ela era de verdade, que eu sumisse porque não precisava de homem nenhum, que a esquecesse, pois ela faria o mesmo. Terminou a cena jogando um copo de água com gelo na minha cara. Rimos muito, foi hilário.
        Aquele foi o último dia que nos vimos. Eu não liguei mais para ela, ela nunca mais me ligou. E não tínhamos ninguém em comum para que pudesse perguntar notícias dela. Até onde eu sei, deve estar bem. Depois, refletindo, percebi que fiquei sem saber se aquela loucura era fingida, ou se era a tristeza que ela fingia.

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15.04.09 em: Quarta



3 Comentários »

  1. Tiana disse:

    Acho que ela é louca mesmo, sem fingimento, e triste também…

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  2. maria da graça gomes disse:

    Era realmente louca e ele também porque aceitou com passividade a loucura dela, sem se indignar com o escândalo no restaurante….

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  3. Marina disse:

    É engraçado como, às vezes, umas relações simplesmente se desfazem. Não tem um término. Não tem discuções. Simplesmente, os dois não se procuram mais, e sem ter mais ninguém para uní-los, acabam separados para sempre. Mas sempre resta uma curiosidade de saber o que aconteceu com o outro…
    Mas, melhor para ele, que não chamará tanta atenção nas próximas vezes que for ao restaurante, e nem sairá molhado!!

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