Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

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Aline Leal

            Ela pouco sabia dos seus sentimentos atuais e se perguntava como as pessoas podiam agir com a força de quem sai em defesa de um filho agredido. Vá em frente, lute por aquilo que você quer, pelos seus interesses. Mas quais seriam estes, afinal? E quanto custava escolher um destino que julgava tão alheio a si quanto uma ilusão de ótica. A vida, em sua juventude, mostrava-se ainda aberta a alguns caminhos, obscurecidos, no entanto, pela passividade de seus sentimentos.  Mas o tempo corria e era preciso construir uma história; ainda que inevitavelmente frustrante, seria menos doloroso.
              E a dúvida, manifesta em todos os campos de sua vida, atacava agora um ponto especialmente maltratado: o relacionamento amoroso. A crueza de seus sentimentos lhe permitira, uma vez, o êxtase da paixão: palpitante, sufocante, dolorosa. Podia-se dizer que tinha sido uma experiência feliz, mas depois de uma trajetória confusa de incompatibilidade com o outro, a coisa toda se dissolvera mais que tudo em arrependimento de suas atitudes. A conseqüência da insegurança de seus sentimentos e de sua vontade foi uma história não construída, uma semi-verdade, uma mescla de várias coisas que ficaram suspensas e que ela não sabia bem o que era, apenas que o resultado não lhe fora satisfatório e que ela não gostaria de repeti-lo.
              Agora, ainda que o sentimento não a afligisse tanto da maneira que lhe era desejável, a reincidência de sua passividade chocava ao ponto da dor. O que valia a pena na vida: sentir ou não sentir; agir ou não agir? Parecia a ela que seria mais agradável reagir a um sentimento alheio, mas essa situação nunca lhe fora proposta e não parecia ajustável ao seu modo de viver, infelizmente. Mas o gesto da atitude parecia a iminência de um erro, e a decisão da imobilidade parecia o obstáculo para o progresso, desejado. Dúvida.
              Assim, assumia uma idoneidade linear, que não empolgava. Não se tratava de não fazer questão, mas não arrumava força para lutar por aquilo que não tinha certeza. Então perdoava e não se manifestava, até que o sentimento se transformasse em estranheza e já não fosse possível comparti-lo. A ponte que seria necessária cruzar para chegar àquilo que nem sabia o que era que lhe fazia falta não era para ela um movimento natural. Mas, das dúvidas que a sufocavam até hoje seria necessário abrir uma fresta para a pouca certeza de que tinha.

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29.04.09 em: Quarta



5 Comentários »

  1. Marina Duarte disse:

    Mesmo errando é mais fácil escolher o caminho certo depois de tentar. Essa dúvida que paralisa a gente só serve para nos atrasar ainda mais, porque aprendemos, sobretudo, com os nossos erros.
    E relacionamentos devem sempre ser vividos!!! Não existe economizar sentimentos.
    Beijos!!

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  2. Raquel disse:

    Adorei isso:
    Mas o gesto da atitude parecia a iminência de um erro, e a decisão da imobilidade parecia o obstáculo para o progresso, desejado. Dúvida.

    Beijos,
    Raquel

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  3. Tiana disse:

    sensível e tocante. dúvida na essência…

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  4. Ana Ribeiro disse:

    Dúvida: comentar ou não comentar. Comentei.
    Muito bom, Awi, as usual…

    Besitos

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  5. Lúcia Gomes disse:

    Brilhante!!!

    Enxuto, seguro.

    Revela e oculta.

    Lança no ar e deixa o leitor pegar.

    Parabéns! Vá em frente, nesta linha.

    Um beijo grande, Lúcia

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