Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postOração para os Sem-Música

x Convidado Sábado x

Por Fernando de Oliveira

Deus tenha piedade dos que não têm uma melodia para rir
Uma música para lembrar
Uma canção para sonhar
Perdoai os que não têm uma música para chorar
Uma canção para se envergonhar
Uma melodia para trabalhar
Tenha piedade dos que não têm uma canção para amar
Uma melodia para se isolar
Uma música para trabalhar
Orai pelos que só tem batidas monotônicas dentro do coração
(esses, não têm mesmo direito ao perdão)

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30.05.09 em: Sábado

postDeserto

Gazza

Bebi o verbo do seu ser
Desaguado em mim sobre oceano
Sequei
Minhas lágrimas de quando você se foi
Molharam a terra
Dali um novo mar se abriu
Sobre meu coração
Tua mão surgiu
Para me ancorar nesse porto
Imenso corpo a boiar
Eu quero todo seu mar

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29.05.09 em: Sexta

postValsinha de um coração dividido

Raquel C. de Medeiros

Olho para o oceano em busca de uma resposta e encontro dois pares de olhos, arregalados, a tentarem me desvendar. Duas correntezas distintas: um me puxa para um lado, o outro me convida para o outro. A melancolia das ilhas ou o balanço envolvente das ondas? Olho para um lado e para o outro e vejo-me perdida na dança das águas, uma valsinha triste mas tão inspiradora. Inevitável. Escrevo para não morrer afogada, quais as mãos que terão mais força para me salvar, heim? O que preciso agora é de um barco cheio de palavras doces que tomem a minha boca e digam para vocês que eu gostaria de não ter que decidir. Mas a correnteza me pressiona: isto ou aquilo?, lembro do poema da infância. Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares, eu recitava, achando graça. Ainda não conhecia a responsabilidade das escolhas. Quero falar com o olhar, mas será que me compreenderão? Se me arrisco e alguém se perde, esse mar não me perdoa: são impiedosos os oceanos. Mas há uma onda se formando e eu sei nadar, preciso lhe dizer. E ela me convida, me convida e serão tantas as praias, eu imagino. Tantas marés cheias de alegria. Mas então lembro do calor das suas mãos, que me seguram e logo me soltam. Medo ou intuição?, tento adivinhar. Então vem a onda e me arrebata. Isto ou aquilo?, o meu coração dança e chora. Mas todo esse sal da escrita que espuma nos meus olhos me liberta das cicatrizes eternas, acredito. E para onde mesmo eu estava indo antes dessa valsa começar? Ah é, para o Google, a procura de algum oceano que me descrevesse. Mas eu queria mesmo a ajuda da Luciene Braga (segunda-feira) para me dar um fim daqueles geniais. Estou sempre me desdobrando com os fins porque minha vocação é para os começos. O resto é esforço.

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28.05.09 em: Quinta

postA prova

Aline Leal

Disse a ele que queria de aniversário uma cartinha escrita de próprio punho. Eu nunca recebera a cartinha de um namorado antes na vida e aquilo convinha também a ele porque não teria de gastar dinheiro nenhum e andava bem duro.  Ainda faltavam duas semanas para o meu aniversário e eu fui logo avisando quando ele começou a sondagem sobre o meu presente.

Como eu imaginava, o Júlio fez corpo mole e disse que compraria um cartão em que estivesse escrito tudo aquilo que ele gostaria de dizer pra mim. Eu achei essa ideia absurda e insisti no meu pedido. Ele então confessou, porque lhe convinha, que tinha vergonha de cometer um erro de português, de mal colocar uma frase, porque eu era formada em Letras, fazia mestrado em literatura e, segundo dissera a ele, tinha uma orientadora casca-grossa, e ele era um mero administrador pouco acostumado a fazer uso das palavras.

Bem, então eu lhe disse que as suas palavras, ainda que mal construídas em frases, seriam para mim mais especiais que as de Drummond, Pessoa, Rimbaud, ou de qualquer outro que ele sabia que me tocava porque eu às vezes lhe recitava uns trechos. E sem dúvida seriam. Ainda que a literatura fosse até certo ponto a minha vida, eu desejava a vida além dela.

A verdade é que eu achava a sua falta de familiaridade com as palavras uma vantagem. Todas as vezes em que eu me propus a escrever uma cartinha, devo admitir que acabou soando como um exercício literário em que a literatura oprimia os meus verdadeiros sentidos. E eu gostava do jeito do Júlio escrever, pelo que me mostravam os seus emails, a nossa conversa no Messenger. Era espontâneo, não pretensioso, não excessivamente contaminado.

Ele tentou sair dessa propondo, no lugar de uma cartinha, um buquê de flores com um cartãozinho que acomoda uma meia dúzia de palavras. Ora, eu tampouco havia recebido na vida um buquê de flores de um namorado, mas não me soou à altura e eu refutei a oferta de troca. Por que era, no duro, que ele estava se opondo dessa maneira? Eu sinto muito Júlio, mas é o meu aniversário e eu tenho direito.

Caramba, que cara difícil. Eu teria de implorar? Ao que indicava, não, porque não se falou mais nisso, então depreendi que ele estava preparando a tal cartinha.  É bem verdade que no fim de semana fomos almoçar na mãe dele e ela fez um comentário sobre o meu aniversário estar chegando e perguntou o que eu ia querer de presente. Eu disse que, imagine, ela não precisava se preocupar. E ele me olhou com uma cara que dizia que aquilo não era justo. Eu não tive pena.

De tarde, fomos à praia e ficamos sentados na canga olhando o mar. Então, sem fazer qualquer alusão, ele conversou comigo sobre a dificuldade que tinha de colocar em palavras aquilo que era para ele uma prática, mas que queria corresponder às minhas expectativas porque gostava de me ver feliz. Eu entendi aonde ele queria chegar e não o eximi de seu compromisso, se era isso o que pretendia. Mas confesso que amoleci um pouquinho, o envolvi em meus braços e beijei sua bochecha como quem diz obrigada.

Então, no dia trinta de novembro, acordei e desci, ainda de pijama, as escadas até a portaria em busca do meu presente que, ufa, estava lá, envelopado e endereçado a mim. Voltei a subir as escadas, mas parei na metade do caminho, sentei-me em um degrau e abri o envelope e li a cartinha, que dizia assim:

Maria, que dor de cabeça, achei mesmo que ela iria explodir! O que escrever para alguém que te impõe uma tarefa tão árdua? Xingá-la, rogar-lhe pragas, contar-lhe o quanto padeci? Eu não vou fazer isso. Em vez disso, vou contar o que me aconteceu esses dias:

Maria, a empresa em que eu trabalho me ofereceu uma posição em Londres onde eu iria ganhar cinco vezes mais do que aqui, e em libras, e no primeiro mundo!E você sabe como eu ando duro e não gosto disso, Bem, verdade seja dita, eu fiquei tentado a aceitar proposta, arrumar as malas e partir. Mas então, Maria, pensei em ti. E em como seria viver sem ti. Sem você para me importunar e me obrigar a fazer coisas como essa que me aprontou agora. De onde você tira essas ideias,Maria? Lembra da vez que você cismou porque cismou que queria fazer um ensaio fotográfico comigo? E me arrumou umas roupas do seu pai que ficaram esquisitíssimas em mim!E da vez que tentou me transformar em flamenguista? E da vez que inventou de aparecer na casa da minha mãe para me pedir em namoro, só para que eu fizesse igual a ti? Não, Maria, eu não aceitei a proposta. Você é louca, me perturba as ideias, me atormenta o ânimo, mas eu não posso viver a um oceano de distância de ti.Parabéns nesse dia, minha pepita, em que deuses deviam estar em festa, e embriagados, pra inventarem um serzinho como você que é, na verdade, o presente da minha vida. E eu vou ficando por aqui, esperando, receoso, mas disposto a cumprir, a próxima prova vinda de ti!

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27.05.09 em: Quarta

postLíquido negro

Tiana Maciel Ellwanger

Bebi o líquido negro e quente e agradeci.
Negro e quente e agradeci.
Porque alguém torrou, moeu e ferveu.
Ou na água quente passou.
E assim se fez café.
 
Energia que sorvo para começar o dia.
 
Mais um gole e sinto descer. Quente, escorre pela garganta e, ao fechar os olhos, vejo, com detalhes da imaginação, gotas escuras descerem pelo estômago rosa-sangue. Entrego: ele, o estômago, é o único aqui que não gosta de você. Sem mágoas, ele não gosta de muita coisa boa. Meu cérebro agradece, e é a ele que obedeço. Seja lá o que isso queira dizer.
 
O vigor ao sorver-te é quase imediato. A prostração do acordar vai, aos poucos, transformando-se em vontade de pensar rápido e correr por aí, rasgando a lista de afazeres do dia. Para não desistir, preciso de mais um gole.
 
Encosto os lábios na xícara que rouba o teu calor e sinto prazer. E, de novo, agradeço pela força. Posso afirmar que gosto mais de você do que de alguns que andam por aí e se dizem importantes.
 
E, assim, agradeço aos árabes, etíopes e também aos criadores de ovelha. Que observaram, comeram, fizeram pasta para, depois, como sempre, fazerem amor. E, sem ele, guerra, parafraseio. Tudo em seu nome.
 
Também lamento, do topo da minha ignorância – por não saber o que aconteceu ao certo – que o meu mundo, ciente do teu poder, tenha censurado esse líquido negro que agora me faz desejar um bolo de fubá com manteiga derretida. E, já que somos culpados, peço desculpas por eles que quiseram te eliminar da minha existência. Beberia você mesmo que proibido fosse. Arriscaria minha vida para comprar ou roubar suas frutas vermelhas do mercado negro como você. E, como algumas boas avós, torraria seus frutos para depois libertar as cascas queimadas no redemoinho que passa, todos os dias, aqui na porta.
 
Enquanto o calor massageia minha boca, sorrio ao lembrar que, até para prever o futuro, você, empoeirado, parece eficaz. Também disso não sei, mas sei que quem antevê o que vai acontecer a partir da tua borra, acredita. E quem acredita segue o que acredita. Não é assim? Você, que já viveu tanto tempo, poderia me responder. Mas sei que não vai. 
 
Voltaire e Rousseau também eram teus fãs, mas isso é só para realçar a tua importância, que às vezes vem com chocolate. Penso que sou um frutinho vermelho da tua História, que se transformou em minha, porque assim quiseram. E eu nada posso fazer além de continuá-la, para a direita, para esquerda ou para o centro. Ou, quem sabe, sigo o teu caminho e faço um espiral?
 
Sobra apenas um gole e não vou servir outra xícara. Fecho os olhos para nada além das últimas gotas me influenciarem no teu fim. Que eu decretei, mesmo com aquele restante que ainda aquece a cafeteira dos meus tempos. Restante que vou deixar esfriar e empoeirar, porque assim decidi, que não te bebo. É desrespeito. 
 
Não sei como terminar,
Você e esse texto
E antes que eu me arrependa
E pegue outra xícara na cozinha
Vou me concentrar pra te esquecer
Vou dar um mergulho
E refrescar o teu calor.
Por favor. Lá eu não penso em você.

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26.05.09 em: Terça

postAlô sem fim

Luciene Braga

- Alô?!
- Sou eu, tudo bem?
- É… são 3h. Algum problema.
- Não, tudo bem. Estava dormindo?
- Faço isso todo dia. Ou melhor, toda noite. Diga, o que houve?
- Rosa acabou comigo.
- Meu Deus, por quê?
- Não sacaneia.
- Espere. (Não amor, não é nada sério, é, é, ele separou de novo. Já volto pra cama). Pode falar, tudo bem. Pare de me enrolar e diga logo. Quer vir até aqui? Passar a noite conosco?
- Está sugerindo um menáge?
- Estou, estou. Acordei às 3h e pensei: Beto vai ligar e vou convidar para um menáge. Acordo às 7h. Ande, fale.
- Calma, eu era quem deveria estar nervoso. Are Baba.
- Pirou de vez, está vendo novela.
- Tic, Estou ouvindo Djavan. “Oceano”. Ouça.

“Amar é um deserto
E seus temores
Vida que vai na sela
Dessas dores
Não sabe voltar
Me dá teu calor…”

Só penso em você.

- Ah, Beto, Djavan de madrugada?
- É para você, Wanderley.
- Espere aí…
- Não posso mais guardar isso: “Vem me fazer feliz porque eu te amo”…
- “Você desagua em mim, e eu Oceano”…
- Você entendeu.
- Meu Brokeback Mountain!
- Rosa desconfiou de nós. Eu disse que não havia nada, mas ela me mostrou que sim. Eu estou apaixonado por você e não é de hoje.
- Cara, você fala sério? Agora é Zezé de Camargo e Luciano.
- Agora que falei, não tenho a menor dúvida.
- O que vamos fazer?
- O que todo mundo faz. No início, é meio sem jeito, mas confio no nosso taco.
- Are Baba.
- Te espero aqui.
- Estou indo. Não tire a música do som.

E a história não tem fim.

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25.05.09 em: Segunda
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