Fora do Tom
Luciene Braga
Olivia tinha nome de artista. E queria ser uma tal. Como seus dotes, que eram muitos, ainda não despontaram para os tabloides e programas de fofocas, e também ela não tinha acesso a áreas vips de shows, o jeito era ajeitar uns contatos. Fazia o que fosse preciso por um lugar nos currais de famosos em dias de espetáculo. E ganhou desenvoltura para falar nomes de gente que gostaria de ser.
Era bonitinha, saía bem nas fotos. Como seu olhar era daqueles convidativos para homens apressados, acostumou-se a poucas horas de sono. Era o jeito de pagar o ingresso. Olivia consumia tudo: MPB, Bossa Nova, Rock e até um pouco de Jazz. Decorou alguns nomes e impressionava. Amigos até perguntavam detalhes de artistas estrangeiros. Viu as fotos de Chico Buarque com a anônima e lamentou não ter sido ela. Ah, aproveitaria aquela história como ninguém. Vestia-se como rock star. Fazia sexo como groupie, e também era elogiada por isso, mas não conseguia avançar em seus planos, até que um colega jornalista a convidou para um certo show. Ele tinha acesso ao camarim e pretendia entrevistar o astro. Para ela, era a grande chance.
Descoloriu os cabelos, vestiu sua calça mais justa e treinou o andar. Olharia para o tal com jeito desinteressado e farto. Era bonito, achava, näo que se importasse. Convidou o amigo para beber algo antes de irem. Planejou tudo. Pegou a credencial e deu a ele um barbitúrico capaz de amansar o mais eufórico. Deitou a cabeça dele com cuidado, fechou a porta e correu para o show certa de que o melhor seria o seu.
E, de fato, foi.
Conseguiu que o cantor milionário retirasse todos do camarim só com uma olhada de costas. E pediu a ele que cantasse só pra ela. Riu-se do fato de nunca ter se dado ao trabalho de aperfeiçoar seus conhecimentos daquele mercado. Soou bem, embora achasse tudo um pouco desafinado. Os dois impostores fizeram sexo ao som de trilha sonora de filme pornô. Ela reparava que havia boa música nas produções.
O mercado da música lhe fez muito bem: Olivia ganhou carro, viagens, coisas de comprar, ensaios fotográficos e teve até de desmentir boatos. Quando tinha vontade de chorar e nem entendia a razão, comprava ingressos, já que não precisava mais ganhar. E ganhava bem mais que antes, distribuindo tudo. Como era esperta, a preferência era do amigo jornalista.
Como passatempo, passou a ouvir músicas diferentes para fugir do mundo que sempre quis. Funcionava.
04.05.09 em: Segunda