Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postO sole mío

Aline Leal

        Pegaram ônibus porque era mais divertido que andar de carro, esperá-lo no ponto, fazer sinal, subir as escadas, pagar a passagem, escolher um banco para sentar, de cima olhar pela janela, ficar atento em que ponto parar, puxar a cordinha, descer as escadas, caminhar até o destino de mãos dadas, Suzana assobiando qualquer coisa e Otto apontando essa mania que já tinha identificado apesar do pouco tempo que se conheciam. 
        Ela propôs um jogo em que um adivinhasse a música que o outro estivesse assobiando e logo se deram conta de que Suzana era melhor de adivinhar e Otto, de assobiar a canção (ficou a dúvida se era Otto que adivinhava mal ou se Suzana que era ruim de assobiar). Era uma sensação boa compartilhar uma brincadeira tão simples, quase boba, como se um apreciasse no outro uma bondade infantil que fosse indício de que as coisas caminhariam bem.
         Quando era hora de cantar a música assobiada, um e outro emitiam o comentário de como eram desafinados; envergonhados com a exposição, desculpavam-se de antemão – e essa atitude previsível os tornava ainda mais bobos. A brincadeira teve a duração de uma noite e a manhã do dia seguinte; enquanto levava Suzana até o elevador, Otto assobiou uma canção e ela adivinhou de primeira.
          Na noite do mesmo dia, Suzana retornou ao apartamento de Otto e a tentativa de retomar a brincadeira mostrou-se impopular. Ele escolheu o repertório, cozinharam e jantaram, fumaram um cigarro e conversaram, beijaram-se e ficaram deitados na cama escutando a música gravada no computador, Suzana por muito tempo de barriga pra cima, os olhos abertos, demorava a dormir ao lado de estranhos. Quando finalmente pegou no sono, uma música gravada num volume alto a acordou e ela se levantou perturbada para desligar o computador, queria dormir sem som.  
          Com o tempo, passaram a andar no carro de Suzana ouvindo CDs gravados por Otto e pouco tempo depois perderam o interesse um no outro. Suzana tentou repetir a brincadeira nos casos seguintes e logo tornou-se claro que  não era capaz de tornar reconhecível uma música assobiada por ela. Otto nunca mais conseguiu que adivinhassem de primeira uma música assobiada por ele como quando Suzana gritou enquanto a porta do elevador se fechava: O sole mío!

[Post to Twitter]  [Post to Delicious]  [Post to Digg]  [Post to StumbleUpon] 

06.05.09 em: Quarta



4 Comentários »

  1. Vanessa Mazzari disse:

    Isso aí, Alinão! Uma hora as coisas perdem a graça mesmo,rsrsrrs….Como driblar a rotina ou como invenatr novas rotinas?

    [Responder este comentário]

  2. Calos Alberto (Beto) disse:

    Oi Aline!

    Gostei muito,continue assim explorando o seu lado de escritora.

    Abraço forte,

    Beto

    [Responder este comentário]

  3. Tiana disse:

    Acho que era Suzana que assobiava mal… rss

    [Responder este comentário]

  4. Raquel disse:

    Hehehe.. adorei o fim! singelo..

    [Responder este comentário]

Feed RSS dos comentários deste post URL de TrackBack

Deixe um comentário