My Funny Valentine
Raquel C. de Medeiros
Parei próximo à moça e a algumas outras poucas pessoas, que também a assistiam. Logo compreendi que ela cantava para chamar o seu amor de volta. Era como se a minha música, que também era dela, precisasse daquele gesto para sobreviver. Então abria e fechava os olhos, acelerava e freava a melodia e nosso coração batia tão forte como se a música fosse morrer.
Então eu não me agüentei: comecei a chorar e senti que de seu rosto também escorriam lágrimas, tão pesadas quanto as de Petra Von Kant. Mas eu não conseguia vê-las. My funny valentine, sweet comic valentine, you make me smile with my heart, E para tentar salvar a canção daquela iminente morte, a moça recomeçava a cantar. Então eu olhei para os lados e percebi que as pessoas pediam bis em silêncio. Depois olhei novamente e percebi que todas as pessoas eram eu.
Fiquei desnorteada mas permaneci ali, ouvindo a moça, que cantou a minha música até perder a voz. Quando isso aconteceu, ela continuou a tocar a melodia e nós, a platéia, entoamos a letra: stay little Valentine stay, each Day is Valentine’s Day. Foi tão bonito que as estrelas, juro, aplaudiram. Depois, emocionada, ela tentou dizer: essa era a nossa música, mas sua voz não saiu. Tive a sensação de que só eu havia ouvido e completei, baixinho: de repente não mais. Mas ela me ouviu e, pela primeira vez, olhou para mim, dentro dos meus olhos: em quantas gavetas será que já a guardaram? Depois pegou seu violão e atravessou o muro, como um espírito.
Tentei correr atrás dela, sem acreditar no que havia acontecido, mas não a alcancei. Acordei chorando. Não havia ninguém ao meu lado. Também não havia música feita para mim, não havia Berlim, nem mesmo uma prova de que a canção existia. Havia apenas a lembrança da história de uma música alegre que não mais que de repente ficara triste de doer. E o desejo ardente de ser a sua funny valentine, very very funny valentine.
07.05.09 em: Quinta
