Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postCecília

Gazza

Mais uma semana começava.
– Cecília, larga esse rádio. Tem uma muda de roupa para você lavar, agora.
A voz da mãe, aguda ao extremo e desafinada na mesma proporção, soava como um pesadelo para a filha. Não gostava dos afazeres de casa nem da vida que levava. Era apaixonada por música. Costumava, sempre que a rotina lhe permitia, ficar horas ao lado do pequeno rádio de pilha viajando ao som de Caetano Veloso, Belchior, Chico Buarque e outras feras da MPB. Tinha seus dias de soul music, quando as viagens eram marcadas pelo suingue de Marvin Gaye, Tim Maia, Four Tops… Era tudo que ela queria. E era tudo que a mãe desprezava.
 – Menina, larga de ser boba. Parece uma bocó com esse rádio pra lá e pra cá – bradava a mãe, sempre que flagrava Cecília ouvindo música.
A escola já havia ficado para trás, diante da miséria. Era preciso ajudar a mãe para aumentar a parca renda da família. Os três irmãos menores ainda estudavam, mas Cecília sabia que seria por mais pouco tempo. Como ela, seguiriam o mesmo caminho para garantir um pouco de decência à vida. No pequeno barraco de dois cômodos, não tinha qualquer privacidade.
Esperava, sempre com ansiedade, a noite chegar.  Antes de dormir, colocava estrategicamente o rádio sob o travesseiro. Ali, encontrava a vida. E se libertava.
Em seu universo paralelo, sentia a vida pulsar diferente. Em cada acorde, em cada melodia, em cada palavra cantada, a essência de estar ali. Havia desistido de trazer seu mundo para a realidade das mudas de roupa, da fome quase diária. Não suportava o som e as cores daquela rotina.
 
“Não preciso que me digam, de que lado nasce o sol
Porque bate lá meu coração
Sonho e escrevo em letras grandes de novo
pelos muros do país…”
 
Naquela noite, a música de Belchior soara diferente. Como se tivesse ouvido uma melodia premonitória. A rotina pesava sobre suas costas, a vida, a relação com a mãe. Fechou os olhos para abraçar o sono, que chegara sob as canções que embalaram sua vida.
– Levanta menina, levanta. Tem muito serviço hoje. Cecília, minha filha, acorda!
Cecília nunca mais voltou…

[Post to Twitter]  [Post to Delicious]  [Post to Digg]  [Post to StumbleUpon] 

08.05.09 em: Sexta