Uma menina
x Convidado Sábado x
Por Rozane Monteiro
Ela só tinha dois anos. Sua mãe, 21. As duas, nordestinas. Quando chegaram ao Rio, a mãe virou empregada doméstica de um casal de classe média, os dois na meia idade. Ela, dona-de-casa. Ele, funcionário público, homem culto, católico apostólico romano, como gostava sempre de repetir.
Homem de fé, sabia até latim.
Ele gostava da menina. Gostava muito mesmo. Gostava mais do que devem gostar de meninas de dois anos os homens católicos de meia idade. Gostava tanto da menina de dois anos, que quase morreu de ciúmes quando sua empregada resolveu dar a filha para adoção e foi procurar uma família. Uma outra família qualquer. Qualquer outra família. Ele dizia que queria adotá-la. Ninguém nunca entendeu por que a mãe da menina não escolheu os patrões. Muito menos porque o patrão ficou tão furioso quando o casal escolhido para tocar a vida da menina foi outro.
A menina só entendeu tempos depois. E nunca mais parou de chorar.
Nem de rir. Nem de beber. Virou palhaça bêbada.
Também virou poeta.
Quando encontraram o corpo da menina estirado no pátio da área de serviço do seu prédio, tinha um papel amassado na mão. Com um poema:
Sem título
Quanto mais me procuro,
tanto mais vou me perdendo
Louca, vadia, poeta baldia
Não sei mais de mim
Também não pergunto mais
pela menina que um dia eu fui
Não tenho nem mais rima,
a métrica escorre pelas mãos
Também agora me escapam
o verso branco, o poema moleque,
a alma em festa, a tristeza fértil
Minha dor, hoje, é estéril
Fui ali e voltei,
o tempo passou.
Virei gato atropelado,
esfolado no asfalto
Virei suco, virei pizza.
Só não virei o que
um dia eu quis.
