Manchas
Tiana Maciel Ellwanger
A água escorria pelos meus ombros, em direção ao ralo entre azulejos. Abri os olhos e vi a mancha que, em segundos e piscadelas, não mais voltou. Definitivamente eu não estava louca. A mancha, cinza-escura-quase-negra, esteve lá quando desgrudei as pálpebras para pegar o xampu. Ela estava exatamente na junta de dois azulejos amarelados pelos anos, de vida. A sombra, mesmo que por uma armadilha de minha mente, era verídica, talvez não verossímil.
Saí da água quente, esfregando os olhos, e me olhei no espelho. As manchas estavam em meu rosto e o piscar dos olhos, pena, não as apagava. Peguei a gilete e quis arrancá-las. Foi então que uma a uma começou a contar sua história, pelo espelho. Manchas de tempo, algumas tímidas de pausas corridas, algumas fortes, de luz em excesso. Quando olhadas de perto, tinham formas complexas e belas. Muitas tinham origem em dias ensolarados, deliciosos quase todos eles. E também em dias de não-cuidado, agora, só agora, eu sabia. A maioria surgiu de uma hora para outra, em manhãs espalhadas pelos anos. Outras eu vi crescer e pouco fiz para detê-las. Nenhuma delas pediu minha permissão, porque sabiam que eu não daria. E também agora não me pediam permissão para tagarelar histórias pelo espelho. Não as arranquei, é claro. Mas as fitei por minutos, não lembro quantos, e tenho certeza de que as deixei constrangidas.
A que ficava acima da sobrancelha direita fora com Gabriel, onírico Gabriel, lembrei com sorriso daquele feriado de amor. A da direita, na altura do nariz, em formato de mapa da Austrália, era acumulada pelos dias de Nara correndo na areia. Nara, minha filha e do sol. Mais do sol do que minha. No queixo, havia outra, de nervosismo, espinha espremida ainda na época em que eu me envergonhava de ter um seio maior que o outro. A da testa merecia reverência, bem no meio, de catapora e beijo de papai. Tinha ainda outra, droga, abaixo do olho direito, de uma espinha, já nos anos em que eu não manchava nada de sangue — e mesmo assim , como uma adolescente — espremi porque achei que não tinha mais idade para uma mancha branca e redonda. Ela, para me contrariar, ficou marrom e ovalada. Pequena pelo menos.
Olhando cada uma delas, acreditei porque elas me convenceram, de que valeram a pena, quase todas. E pelas que não valeram, ou porque tive vontade, chorei, mais para manchar os olhos, e ver as manchas das lágrimas cinza-maquiagem descerem pelo nariz. Pedi para que se calassem e eu pudesse, assim, me concentrar nos pensamentos, sobre elas, mas sem suas interferências interessadas. As manchas, agora, dificultavam mais histórias, acreditei por um momento e as odiei, como no começo, quando quis arrancá-las com a gilete. Não, não. Essas que teimavam em me atrapalhar eram as manchas da cabeça, tinha de crer nisso. E mudando o rumo da prosa comigo mesma: o que eu seria sem essas manchas? Imaginei uma mulher que não quis ser e pedi desculpas às marcas pelo ódio passageiro.
Molhada, fui para o quarto e adivinha o que vi? Mais manchas. No lençol, avinhaladas. Decidi trocá-los, agora mesmo. Enquanto arrancava os elásticos presos embaixo do colchão, também manchado, olhei para a parede e: manchas que gelavam, com cor de gelo, a tinta alva. E que não, não as tinha percebido até então. Já com o lençol sem manchas, deitei sob o edredom colorido, e senti vontade de sorrir, largo. E sorri, largo. E agradeci ao acaso, por tudo. Por ter nascido amado conhecido ensinado sofrido e novamente amado tanto. E, acima de tudo, quando tantos amores já haviam partido, por ter sobrevivido para ver essas manchas que, ainda bem, me acompanham. Até aqui.
12.05.09 em: Terça