Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postEle não sobreviverá a ela

Aline Leal

Pablito chegara meia-hora antes no lugar marcado e sentara-se a uma mesa na varanda, como haviam combinado, lugar onde não estariam em evidência e ao ar livre para que Dilva Brava pudesse fumar seu cigarro. Uma hora depois, a atriz de cinema e tevê aterrissou no Miúdos Gourmet e o jornalista, atento, levantou-se da cadeira, acenou indicando a sua presença e, antes que pudesse caminhar ao seu encontro, Dilva sinalizou: ela mesmo iria até ele.

Cáustica; ele anotou mentalmente o adjetivo que poderia atribuir a ela na entrevista, A bela cáustica. Pablito fez menção de prestar-lhe a cortesia de afastar a cadeira para que ela sentasse e, mais uma vez, Dilva esboçou desdém  frente àquela atitude, sinalizando que ela mesma estava apta a tal trabalho. Poderosa; A dama poderosa.

Assim que sentou, ela abriu a bolsa e retirou de dentro uma caixinha laqueada onde guardava cigarros, apanhou um, posicionou-o entre os lábios preguiçosos, formando um ângulo de 45 graus com o rosto. Pablito resistira a oferecer-lhe o fogo, temendo mais uma vez agredi-la com a sua pró-atividade e, dessa vez, Dilva mirou-o , ao contrário, como se dissesse: se manca, boçal. E ele rapidamente atendeu à ordem tácita.

Então o jornalista perguntou se poderia ligar o gravador e a atriz respondeu-lhe dessa forma: soltou-lhe na cara uma bela baforada do fundo do pulmão, apagou o cigarro (e então ele ficou ciente da existência de unhas vermelhas assassinas), cuspiu uma gota densa em cima da guimba que pousava no cinzeiro e disse:  ­‑ Pigarro.

A maioria das perguntas foi eliminada da pauta porque Pablito sentiu que se as arriscasse seria fulminado pela Miss excêntrica. Perguntou-lhe sobre o papel social do ator. Dilva respondeu-lhe que estava solteira, mas sob medicação controlada desde que o “boi vadio saíra para pastar” e daí em diante ela tentara suicidar-se quatro vezes para chamar atenção.

Número um: jogou-se de um helicóptero. Segunda: tentou engasgar com o osso de um pernil. Número três: pediu à empregada que lhe tacasse um vaso maia na cabeça do alto de seu apartamento, no décimo andar. Quarta: a facadas. Sobreviveu a todas com pouco mais que alguns arranhões. Tarja preta, Senhorita tarja preta.  

Pablito desculpou-se pela falta de educação de ainda não lhe haver proposto algo para degustar, tomou o cardápio nas mãos e posicionou-o em frente ao rosto para permitir-se uma expressão atônita. “O que há de gostosinho aqui…”. Dilva foi enfática ao dizer que não tomaria um gole, tampouco provaria uma migalha do quer que viesse da cozinha daquele estabelecimento “pestilento”.

Pediu a ela que se definisse a partir de três adjetivos: “diegesética”, como um coelhinho que migra para as calotas polares no intuito de se camuflar na neve; “solstícia”, uma mulher de lua; “corumbática”, pois portadora de leishmaniose.

Uma obsessão:  “A morte. Le mort. The death. La muerte y la muerte de Quincas Berro d’água”.

Um desejo: “Volver a los treinta para murir  y no volver vieja”.

Quem gostaria de levar para uma ilha deserta: “Tu, Pablito. Estoy terriblemente enamorada de ti”.

Após algumas respostas no mesmo nível de embasamento, Pablito anunciou com um meio sorriso o fim da entrevista. Dilva o fez prometer  relatar “a verdade, nada mais que a verdade, pois tudo o que for dito poderá ser usado contra você no tribunal”. Pablito, um pouco confuso, respondeu: ”positivo e operante”.

Dilva insistiu muito em acompanhar Pablito até a sua casa, e Pablito insistiu muito que ela não o fizesse “No te preocupes, mi nino, és un placer”. Contrariado, caminharam de mãos dadas, Dilva fincando as garras na pele dele, beliscando a bochecha dele como uma tia velha “Cuti cuti” e contando histórias de suas “trepadinhas de lanchonete”. De tempos em tempos, soluçava e soltava gritinhos estridentes “No fuí santa, no fuí santa”.

Quando chegaram a um cruzamento, Pablito impediu Dilva de ser atropelada ao tomá-la pelo braço quando ela já ia atravessando sem olhar para os carros que iam e voltavam de todas as direções “My hero”. Então Dilva não resistiu, uma força interior fez-se imponente, foi mais forte que ela e tudo o que pôde fazer foi relaxar um sorrisinho travieso. Puxou Pablito pelos braços com força e chutou-lhe a bunda para atirá-lo a jato no meio dos carros em movimento. O corpo foi golpeado por um Xsara prata em alta velocidade; Pablito foi lançado para o alto, descreveu uma curva no ar para cair feito manga madura no asfalto, a atriz olhou a cena com interesse e gritou com melodia: “Oi bumba-meu-boi-bumbá”.

[Post to Twitter]  [Post to Delicious]  [Post to Digg]  [Post to StumbleUpon] 

13.05.09 em: Quarta