Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postSaltos mortais

Raquel C. de Medeiros

Era um chão de juventude, ainda bambo para segurá-la daquele susto. Pela primeira vez, sentia tanta pena de si mesma que não conseguia mais parar de chorar. Mal começara a vislumbrar aonde chegaria, mal dera os primeiros passos e caíra naquele buraco escuro e profundo. A barriga crescia enquanto ela se dava conta da distância de seus sonhos: era como se aquela vida limitasse a sua de modo irreparável. Achou que fosse morrer de tanto chorar até que decidiu: para sobreviver era preciso parar. E não bastava secar as lágrimas por fora, precisava era achar a fonte e conseguir dominá-la. Transformar aquele sal todo em alguma força. Então respirou fundo por horas, dias, e finalmente pariu um chão firme o suficiente para agüentar pulos e marretadas. Saltos mortais. Venceu nos mais diversos sentidos: já é mulher feita. Realizada. Mas não consegue mais chorar. Conta umas três ou quatro vezes desde aquela adolescência. Não que não tenha sofrido: ninguém vive o tempo todo, ela diz, há horas em que a gente cansa, para, desce e sobrevive. Ao caos, ao excesso de informação, à falta de generosidade do mundo. Às vozes chatas que somos obrigados a escutar. Ai. Sobrevivemos às idéias mais idiotas que pessoas de quem a gente precisa à vezes tem. Nesses momentos o olhar fica esquisito, olhar de um dia após o outro, de uma refeição após a outra. Amarelo ou azul, pouco importa, a noite torna-se apenas a continuação do dia. Mas ensinou aos seus: não reclamem da vida. Nunca. E andem com a postura de quem vive, mesmo quando estão apenas sobrevivendo. É esse chão que segura todas, é esse chão que garante a marca da dignidade no nosso rosto quando batemos de cara nele. E sobre esse chão ela dorme em paz.

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14.05.09 em: Quinta