Olfato
x Convidado Sábado x
Por Didiê Kinsey
Bandido tinha nascido com a mão preta, o resto do corpo era branco que só. Sempre teve problemas, sua mão direita fedia a podre, uma carcaça mórbida que não tinha estímulo. Seus pais o acostumaram desde cedo a usar luvas, de todas as cores e tipos, mas ele preferia as brancas. Para ele o branco tinha cheiro, um cheiro que ninguém percebia. Só alguém que nasceu com carne podre envolvendo os ossos da mão sentiria os cheiros incógnitos deste mundo e do outro.
Já Bela nasceu linda! Cabelos longos e escuros, olhos num tom esverdeado desdenhoso. Tinha dias felizes, dias tristes, dias vazios, gostava dos vazios, no vazio o ódio cresce. O belo ódio de Bela crescia o tempo todo, ódio com momentos de fúria, que foram virando fúria com momentos de crueldade, que foram virando crueldade com momentos de loucura, que foram e foram e foram. Bela não amava a vida. O medo da vizinhança, fazia vítimas. Dos pássaros tirava as asas, os pés e o bico; Cachorros sem pernas e rabo; Gatos caolhos, sem orelha. Matava, ficava assistindo a morte lenta de sangue escorrido e coagulado. Guardava carcaças na casa do quintal, seu circo de horrores divertido. Num de seus dias vazios sentou-se na frente do espelho murmurando palavras inteligíveis empunhou a navalha com a mão direita e cortou a ponta, sofreu; gritou; gemeu; suportou e empunhou novamente cortou o lado direito, gritos num misto de dor e prazer. O gosto de sangue em sua língua era delicioso como doce, na última vez cortou o lado esquerdo e desmaiou num doloroso sono fúnebre. Bela ainda estava viva.
Bandido era animal, cheirava como animal, aproveitava cada cheiro novo que sentia, orgasmos olfativos. Quando criança era humilhado por todos, o menino das luvinhas, adulto era o elegante homem das luvas que possuía mulheres por inteiro. Daí o apelido, Bandido violento que não apenas roubava a essência feminina, despetalava, arrombava, num arrombo sexual virtuoso. Habitualmente muito educado, um monstro deflorador entre quatro paredes. Apenas um propósito: percorrer toda a extensão do gentil e delicado corpo feminino. Apertava e mordia para arrancar seios de qualquer tamanho, cor, cheiro e gosto. Bandido nunca tirava as luvas.
Adulta e viva, Bela, ainda escondia-se na casa do quintal de seus pais. Saía só à noite coberta por véus. Dois tufos de algodão de eterna sanguinolência. Prazer sexual? Só no carnaval, quando o monstro de curvas perfeitas fantasiava-se. Todo ano tinha sexo seguido de morte e corpos apareciam sem membros em becos da cidade.
Naquele carnaval mascarados andavam pelas ruas e desfilavam nos clubes. Olho bateu no olho, Bela olhou primeiro, ou teria sido bandido? Sei que os olhos se encontraram, dançaram juntos, suaram juntos, roçaram um no outro:
- Vamos sair daqui, disse ele.
- Vamos para um lugar mais reservado, disse ela.
- Vou extirpar suas mamas e colocar no meu armário, perfumando meus ternos.
- Vou cortar seu membro fora e coloca-lo em um vidro.
Bela tirou a blusa e Bandido foi pra cima, desvencilhou-se das calças, levantou a saia, pernas com cicatrizes. Penetração. Mordida. Marcas. Sangue escorrendo nos lábios. No meio da tórrida cena Bandido puxa-lhe a máscara. Os tufos de algodão ensangüentado. A mulher não tinha nariz. Não tinha nariz! Não tinha Nariz. – Monstro – ele gritava. – Sai daqui monstro! – ele corria.
Bandido chegou em frente sua casa esbaforido, colocou a mão no bolso para pegar suas chaves, sentiu algo gosmento, empapado. Um nariz falso ensangüentado. Nãããão!
16.05.09 em: Sábado