Sono profundo
Aline Leal
Naquela época, eu chorava muito. As lágrimas me enchiam rapidamente os olhos, acumulavam-se dentro deles, comprimiam-se para ganhar espaço, embaçavam a minha vista até que, unidas, transbordavam volumosas, as lágrimas a rebentar feito tromba d’água, desciam quentes pelo meu rosto, como se contivessem dor. Eu lhes estendia a língua, algumas pousavam emprestando sabor, alojavam-se, úmidas, nas papilas, eram absorvidas determinando o paladar do choro: suave. As outras percorriam bochecha, queixo, pescoço, alcançando, quando muito, as saboneteiras. Raramente, alguma era sugada por uma narina, umidificando o recinto e facilitando a passagem de ar. As lágrimas brotavam e os olhos se comportavam como bexiga cheia: aliviados por derramar o líquido quente. Companheiro delas, o ranço espesso reprimido na garganta: a arranhá-la, a implorar-lhe fuga, a irradiar ondas. Como remédio tomado sem água, a apontar o rastro, a acusar o volume, a almejar ser tragado.
Naquela época, eu chorava muito, e, ainda que o sofrimento não fosse uma sensação totalmente desprezível, eu desejava afastar-me dele por um tempo. Por isso aceitei quando Plínio passou a mostrar interesse por mim. Logo o Plínio que sempre fora tão indiferente à minha pessoa por mais que eu evidenciasse disponibilidade, puxasse assunto, aparecesse com roupa colada ao corpo. Talvez ele simplesmente precisasse da companhia de uma mulher, qualquer mulher e, sendo assim, fomos ao cinema. Já antes de o filme começar, ele passou o braço por cima do meu ombro como se fossemos um casal e inclinou-se para me beijar. Eu não queria aquele beijo e senti sua língua à milanesa entrando na minha boca como se fosse a primeira noite de uma mulher e doesse para penetrar, o toque áspero lixava a minha língua como se não estivesse ali para proporcionar prazer. O gosto não era melhor que a textura, de um acre de estômago digerindo as próprias paredes, de um acre de boca de lhama.
Naquela época, eu chorava muito e conhecia as minhas razões. Sabia que Pablo tinha passado por minha vida e que as sensações que me aguardavam teriam um padrão muito alto a superar. Hoje, depois de tanto tempo, encontrei Pablo por acaso na seção de queijos do supermercado da esquina de onde moramos eu e Pedro. Afastei-me para que não me visse e me escondi atrás de umas latas de Nescau, continua lindo para os meus olhos. Lembrei-me de como ficava enlouquecida com seus beijos, o simples toque dos seus lábios nos meus, sua língua a entrar e preencher todo o vazio e a gerar calor, a me conduzir para o sono mais doce ou a meditação mais profunda. Tive vontade de ir até ele e experimentar outra vez todas aquelas sensações entre gorgonzolas, camemberts, bries e provolones. Mas então pensei em Pedro. E no que Pedro pensaria ao ver numa cena dessas a sua própria avó.
20.05.09 em: Quarta
Bom dia Awy!!!!
Muito intrigante esse texto. No início, achei que fosse uma criança, depois uma adolescente indo ao cinema, mais tarde uma mulher frágil após alguns relacionamentos que não deram certo, e ao fim descubro que já é avó?!
Mas imagino que Pedro se divertiria ao ver a avó escondida atrás de latas de nescau!! Como uma criança!
A única pergunta que tenho é: tinha que ser um hálito acre de lhama??? Não tinha outro bicho não??
Beijos!!!!! E uma ótima quarta!!!
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Que viagem!! Adorei.
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Adorei!
Muito bom o hálito acre de lhama, mas melhor ainda o final. Parabéns!
Beijo,
Raquel
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Muito bom o texto, Aline. A repetição de “Naquele tempo” , introduzindo os três parágrafos remete a idéia de um passado, e que, sabiamente, não é revelado.
O final enxuto e inusitado, volta ao início, onde a língua beijava as próprias lágrimas.
Belo e poético.
Vá por aí.
Bjs, Lúcia
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Aline, eu não sei que gosto tem um beijo de “lhama” (risos).
Mas LHAMA contém a palavra “lama”, a palavra “ama”, a palavra “mala”.
Olhos de quem teve o privilégio de ser aluna do Décio Pignatari e do Haroldo de Campos. Se foi inconsciente, vc marcou um gol.
Bjs, Lúcia
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