A menina no espelho
Raquel C. de Medeiros
Precisava salvar-se daquela afetação transmitida pela família: durante muito tempo faltou-lhe coragem para romper e ser diferente dos seus. Aprendera com eles a supervalorizar as grandezas, as pompas e o sobrenome que os elevavam a uma categoria superior à maioria dos mortais: a categoria dos privilegiados. Mas alguma coisa lá no fundo de sua alma vomitava tamanha soberba. Tinha o dom de enxergar. Conseguia ver sob diversas perspectivas, mesmo aquelas pelas quais nunca lhe ensinaram que existiam. Morria de vergonha quando a comida dos empregados era diferente. Sentia-se constrangida com as extravagâncias exorbitantes. E não era o luxo que a incomodava: era a forma como lidavam com ele. Não seria deselegante, mamãe, gastar tanto dinheiro em um vestido, heim, tantos miseráveis nesse país… Mas ali não a compreendiam. Então foi buscar afinidade de pensamentos em outros becos.
No teatro encontrou a sua turma: agora compartilhava sua vida com aquela gente de olhar apurado, que transformava tudo em arte, em histórias, em causos na mesa do bar. Aquelas pessoas sem sobrenome, que eram adivinhadas e admiradas pelas atitudes. Pelo talento de ser. Mas sentia um certo desconforto e até uma ponta de dor com o afastamento familiar: não podia ser feliz rejeitando aquele amor, que existia, descobriu, no mesmo dia em que notara a felicidade de vê-los na platéia. E tentou esconder as lágrimas ao se dar conta que eram sempre os primeiros a levantar para aplaudi-la. Naquele momento, sentiu-se realizada. Eu amo vocês!, gritou, do palco, de improviso, os braços abertos, a cortina fechando. Parecia uma doida, admitiu, se rasgando de rir. Então lembrou-se daquele espelho, que era seu amigo na infância, aquele espelho que permitia que ela fosse quem quisesse ser. Aquele reflexo agora era ela.
21.05.09 em: Quinta
