Alô sem fim
Luciene Braga
- Alô?!
- Sou eu, tudo bem?
- É… são 3h. Algum problema.
- Não, tudo bem. Estava dormindo?
- Faço isso todo dia. Ou melhor, toda noite. Diga, o que houve?
- Rosa acabou comigo.
- Meu Deus, por quê?
- Não sacaneia.
- Espere. (Não amor, não é nada sério, é, é, ele separou de novo. Já volto pra cama). Pode falar, tudo bem. Pare de me enrolar e diga logo. Quer vir até aqui? Passar a noite conosco?
- Está sugerindo um menáge?
- Estou, estou. Acordei às 3h e pensei: Beto vai ligar e vou convidar para um menáge. Acordo às 7h. Ande, fale.
- Calma, eu era quem deveria estar nervoso. Are Baba.
- Pirou de vez, está vendo novela.
- Tic, Estou ouvindo Djavan. “Oceano”. Ouça.
“Amar é um deserto
E seus temores
Vida que vai na sela
Dessas dores
Não sabe voltar
Me dá teu calor…”
Só penso em você.
- Ah, Beto, Djavan de madrugada?
- É para você, Wanderley.
- Espere aí…
- Não posso mais guardar isso: “Vem me fazer feliz porque eu te amo”…
- “Você desagua em mim, e eu Oceano”…
- Você entendeu.
- Meu Brokeback Mountain!
- Rosa desconfiou de nós. Eu disse que não havia nada, mas ela me mostrou que sim. Eu estou apaixonado por você e não é de hoje.
- Cara, você fala sério? Agora é Zezé de Camargo e Luciano.
- Agora que falei, não tenho a menor dúvida.
- O que vamos fazer?
- O que todo mundo faz. No início, é meio sem jeito, mas confio no nosso taco.
- Are Baba.
- Te espero aqui.
- Estou indo. Não tire a música do som.
E a história não tem fim.
25.05.09 em: Segunda