Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postLíquido negro

Tiana Maciel Ellwanger

Bebi o líquido negro e quente e agradeci.
Negro e quente e agradeci.
Porque alguém torrou, moeu e ferveu.
Ou na água quente passou.
E assim se fez café.
 
Energia que sorvo para começar o dia.
 
Mais um gole e sinto descer. Quente, escorre pela garganta e, ao fechar os olhos, vejo, com detalhes da imaginação, gotas escuras descerem pelo estômago rosa-sangue. Entrego: ele, o estômago, é o único aqui que não gosta de você. Sem mágoas, ele não gosta de muita coisa boa. Meu cérebro agradece, e é a ele que obedeço. Seja lá o que isso queira dizer.
 
O vigor ao sorver-te é quase imediato. A prostração do acordar vai, aos poucos, transformando-se em vontade de pensar rápido e correr por aí, rasgando a lista de afazeres do dia. Para não desistir, preciso de mais um gole.
 
Encosto os lábios na xícara que rouba o teu calor e sinto prazer. E, de novo, agradeço pela força. Posso afirmar que gosto mais de você do que de alguns que andam por aí e se dizem importantes.
 
E, assim, agradeço aos árabes, etíopes e também aos criadores de ovelha. Que observaram, comeram, fizeram pasta para, depois, como sempre, fazerem amor. E, sem ele, guerra, parafraseio. Tudo em seu nome.
 
Também lamento, do topo da minha ignorância – por não saber o que aconteceu ao certo – que o meu mundo, ciente do teu poder, tenha censurado esse líquido negro que agora me faz desejar um bolo de fubá com manteiga derretida. E, já que somos culpados, peço desculpas por eles que quiseram te eliminar da minha existência. Beberia você mesmo que proibido fosse. Arriscaria minha vida para comprar ou roubar suas frutas vermelhas do mercado negro como você. E, como algumas boas avós, torraria seus frutos para depois libertar as cascas queimadas no redemoinho que passa, todos os dias, aqui na porta.
 
Enquanto o calor massageia minha boca, sorrio ao lembrar que, até para prever o futuro, você, empoeirado, parece eficaz. Também disso não sei, mas sei que quem antevê o que vai acontecer a partir da tua borra, acredita. E quem acredita segue o que acredita. Não é assim? Você, que já viveu tanto tempo, poderia me responder. Mas sei que não vai. 
 
Voltaire e Rousseau também eram teus fãs, mas isso é só para realçar a tua importância, que às vezes vem com chocolate. Penso que sou um frutinho vermelho da tua História, que se transformou em minha, porque assim quiseram. E eu nada posso fazer além de continuá-la, para a direita, para esquerda ou para o centro. Ou, quem sabe, sigo o teu caminho e faço um espiral?
 
Sobra apenas um gole e não vou servir outra xícara. Fecho os olhos para nada além das últimas gotas me influenciarem no teu fim. Que eu decretei, mesmo com aquele restante que ainda aquece a cafeteira dos meus tempos. Restante que vou deixar esfriar e empoeirar, porque assim decidi, que não te bebo. É desrespeito. 
 
Não sei como terminar,
Você e esse texto
E antes que eu me arrependa
E pegue outra xícara na cozinha
Vou me concentrar pra te esquecer
Vou dar um mergulho
E refrescar o teu calor.
Por favor. Lá eu não penso em você.

[Post to Twitter]  [Post to Delicious]  [Post to Digg]  [Post to StumbleUpon] 

26.05.09 em: Terça