A prova
Aline Leal
Disse a ele que queria de aniversário uma cartinha escrita de próprio punho. Eu nunca recebera a cartinha de um namorado antes na vida e aquilo convinha também a ele porque não teria de gastar dinheiro nenhum e andava bem duro. Ainda faltavam duas semanas para o meu aniversário e eu fui logo avisando quando ele começou a sondagem sobre o meu presente.
Como eu imaginava, o Júlio fez corpo mole e disse que compraria um cartão em que estivesse escrito tudo aquilo que ele gostaria de dizer pra mim. Eu achei essa ideia absurda e insisti no meu pedido. Ele então confessou, porque lhe convinha, que tinha vergonha de cometer um erro de português, de mal colocar uma frase, porque eu era formada em Letras, fazia mestrado em literatura e, segundo dissera a ele, tinha uma orientadora casca-grossa, e ele era um mero administrador pouco acostumado a fazer uso das palavras.
Bem, então eu lhe disse que as suas palavras, ainda que mal construídas em frases, seriam para mim mais especiais que as de Drummond, Pessoa, Rimbaud, ou de qualquer outro que ele sabia que me tocava porque eu às vezes lhe recitava uns trechos. E sem dúvida seriam. Ainda que a literatura fosse até certo ponto a minha vida, eu desejava a vida além dela.
A verdade é que eu achava a sua falta de familiaridade com as palavras uma vantagem. Todas as vezes em que eu me propus a escrever uma cartinha, devo admitir que acabou soando como um exercício literário em que a literatura oprimia os meus verdadeiros sentidos. E eu gostava do jeito do Júlio escrever, pelo que me mostravam os seus emails, a nossa conversa no Messenger. Era espontâneo, não pretensioso, não excessivamente contaminado.
Ele tentou sair dessa propondo, no lugar de uma cartinha, um buquê de flores com um cartãozinho que acomoda uma meia dúzia de palavras. Ora, eu tampouco havia recebido na vida um buquê de flores de um namorado, mas não me soou à altura e eu refutei a oferta de troca. Por que era, no duro, que ele estava se opondo dessa maneira? Eu sinto muito Júlio, mas é o meu aniversário e eu tenho direito.
Caramba, que cara difícil. Eu teria de implorar? Ao que indicava, não, porque não se falou mais nisso, então depreendi que ele estava preparando a tal cartinha. É bem verdade que no fim de semana fomos almoçar na mãe dele e ela fez um comentário sobre o meu aniversário estar chegando e perguntou o que eu ia querer de presente. Eu disse que, imagine, ela não precisava se preocupar. E ele me olhou com uma cara que dizia que aquilo não era justo. Eu não tive pena.
De tarde, fomos à praia e ficamos sentados na canga olhando o mar. Então, sem fazer qualquer alusão, ele conversou comigo sobre a dificuldade que tinha de colocar em palavras aquilo que era para ele uma prática, mas que queria corresponder às minhas expectativas porque gostava de me ver feliz. Eu entendi aonde ele queria chegar e não o eximi de seu compromisso, se era isso o que pretendia. Mas confesso que amoleci um pouquinho, o envolvi em meus braços e beijei sua bochecha como quem diz obrigada.
Então, no dia trinta de novembro, acordei e desci, ainda de pijama, as escadas até a portaria em busca do meu presente que, ufa, estava lá, envelopado e endereçado a mim. Voltei a subir as escadas, mas parei na metade do caminho, sentei-me em um degrau e abri o envelope e li a cartinha, que dizia assim:
Maria, que dor de cabeça, achei mesmo que ela iria explodir! O que escrever para alguém que te impõe uma tarefa tão árdua? Xingá-la, rogar-lhe pragas, contar-lhe o quanto padeci? Eu não vou fazer isso. Em vez disso, vou contar o que me aconteceu esses dias:
Maria, a empresa em que eu trabalho me ofereceu uma posição em Londres onde eu iria ganhar cinco vezes mais do que aqui, e em libras, e no primeiro mundo!E você sabe como eu ando duro e não gosto disso, Bem, verdade seja dita, eu fiquei tentado a aceitar proposta, arrumar as malas e partir. Mas então, Maria, pensei em ti. E em como seria viver sem ti. Sem você para me importunar e me obrigar a fazer coisas como essa que me aprontou agora. De onde você tira essas ideias,Maria? Lembra da vez que você cismou porque cismou que queria fazer um ensaio fotográfico comigo? E me arrumou umas roupas do seu pai que ficaram esquisitíssimas em mim!E da vez que tentou me transformar em flamenguista? E da vez que inventou de aparecer na casa da minha mãe para me pedir em namoro, só para que eu fizesse igual a ti? Não, Maria, eu não aceitei a proposta. Você é louca, me perturba as ideias, me atormenta o ânimo, mas eu não posso viver a um oceano de distância de ti.Parabéns nesse dia, minha pepita, em que deuses deviam estar em festa, e embriagados, pra inventarem um serzinho como você que é, na verdade, o presente da minha vida. E eu vou ficando por aqui, esperando, receoso, mas disposto a cumprir, a próxima prova vinda de ti!
