Valsinha de um coração dividido
Raquel C. de Medeiros
Olho para o oceano em busca de uma resposta e encontro dois pares de olhos, arregalados, a tentarem me desvendar. Duas correntezas distintas: um me puxa para um lado, o outro me convida para o outro. A melancolia das ilhas ou o balanço envolvente das ondas? Olho para um lado e para o outro e vejo-me perdida na dança das águas, uma valsinha triste mas tão inspiradora. Inevitável. Escrevo para não morrer afogada, quais as mãos que terão mais força para me salvar, heim? O que preciso agora é de um barco cheio de palavras doces que tomem a minha boca e digam para vocês que eu gostaria de não ter que decidir. Mas a correnteza me pressiona: isto ou aquilo?, lembro do poema da infância. Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares, eu recitava, achando graça. Ainda não conhecia a responsabilidade das escolhas. Quero falar com o olhar, mas será que me compreenderão? Se me arrisco e alguém se perde, esse mar não me perdoa: são impiedosos os oceanos. Mas há uma onda se formando e eu sei nadar, preciso lhe dizer. E ela me convida, me convida e serão tantas as praias, eu imagino. Tantas marés cheias de alegria. Mas então lembro do calor das suas mãos, que me seguram e logo me soltam. Medo ou intuição?, tento adivinhar. Então vem a onda e me arrebata. Isto ou aquilo?, o meu coração dança e chora. Mas todo esse sal da escrita que espuma nos meus olhos me liberta das cicatrizes eternas, acredito. E para onde mesmo eu estava indo antes dessa valsa começar? Ah é, para o Google, a procura de algum oceano que me descrevesse. Mas eu queria mesmo a ajuda da Luciene Braga (segunda-feira) para me dar um fim daqueles geniais. Estou sempre me desdobrando com os fins porque minha vocação é para os começos. O resto é esforço.
28.05.09 em: Quinta