Tiana Maciel Ellwanger
Comprei chiclete e pipoca. Depois vinho e guitarra.
Comprei o fim da virgindade, mas a segunda vez foi melhor.
Também comprei relógio. E adiantei para não me atrasar.
Comprei farinha e pão na padaria de croissant, que mandei reformar. Comprei muito trabalho de João e Maria. Para servir. De Helena e Jacobina. Pra cozinhar. E de Ellen também.
Graças a eles, comprei, ditoso, horas e noites inteiras de Gisele. Mas amei mesmo foi Gracinda, que nada pediu para eu comprar. Para ela, não comprei passagens pro Alasca ou Paris, nem mesmo pro Joá.
E agora, nessa cama, compro as horas da enfermeira, porque as minhas eu já não posso comprar.
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(final alternativo)
Mas amei mesmo foi Gracinda, que nada pediu para eu comprar. Para ela, comprei passagens pro Alasca, pra Paris, e também pro Joá.
E agora, no seu colo, acho que não tenho nada pra comprar.
30.06.09 em: Terça
Luciene Braga
Eu me vendi. Ao dinheiro. Ao preço. Ao câmbio. À estabilidade. À imitação dos ricos. À inflação. Eu me vendi.
Era um segredo. Que também vendi.
29.06.09 em: Segunda
Gazza
Tarde de sábado, no frio de junho em uma esquina carioca.
– Alceu, quanto tempo, quanta saudade!
– Minha doce Bruna, sempre saudade – responde o amigo, com um largo sorriso.
– E aí, como anda a vida?
– Sei não. Meu coração tá batendo como quem diz “Não tem jeito!”, zabumba bumba esquisito, batendo dentro do peito…Assim, de repente. Acho que é esse mês de junho.
Ouvidos atentos, uma expressão suave de felicidade no rosto com o encontro repentino, Bruna balança a cabeça como quem diz entender tudo.
– Mês de junho, qual é seu nome eu sei…Tempo de frio, prazer…O mesmo nome hei de ter.
– É Bruna, mas esse coração está desajeitado. Não sei bem como, mas está. E o seu…Teu coração tá batendo como quem diz “Não tem jeito!”. O coração dos aflitos
pipoca dentro do peito. O coração dos aflitos pipoca dentro do peito.
– Não tem jeito, querido. É junho. Quando esse mês chega, essa temperatura. Frio que rasga os lábios meus. Ser cria de um sábio mês de junho. Tempo de festas, quintais. Temos os signos iguais, sonhos e planos reais.
– Sabe – diz Alceu, com ar mais que pensativo. – Pensando bem, faz sentido. Esse mês é foda mesmo. Ô coração-bôbo, coração-bola, coração-balão, coração-São João. A gente se ilude dizendo “Já não há mais coração!”
– Comigo sempre foi assim, Alceu. Ser que morde os lábios meus. Ventos que trazem presságios de um mês de junho. Bom demais te ver.
– Também, sempre. Até a próxima esquina.
*Sobre músicas de Alceu Valença e Bruna Caram.
26.06.09 em: Sexta
Raquel C. de Medeiros
A viagem seria longa. Quando as duas começaram a conversar no banco da frente fiquei um pouco aborrecida: eu queria ler ou dormir e as vozes me atrapalhariam. Depois a conversa foi puxando meus ouvidos.
- Vai passar. Dói muito, mas vai passar.
Pelas vozes, percebi que a que estava na janela era uma senhora de uns setenta anos. A outra era mais jovem. A senhora falava mais alto, mas a outra quase sussurrava e eu não podia ouvi-la direito.
- Eu não consigo viver sem os remédios, consegui escutá-la.
- Tem que ser forte. É muito doloroso, eu sei, mas vai passar. Fiquei um ano sem trabalhar, sem disposição para nada, mas passou, disse a senhora.
- Eu não me conformo. Acho que nunca vou voltar a ser a mesma. Tenho a sensação que nunca mais vou conseguir voltar a sentir aquela alegria natural de viver.
- É preciso ser forte, mas vai passar, estou te falando, vai passar. Você acredita em Deus?
- Acredito… Mas mesmo assim, não tenho força o suficiente. Não consigo dormir, nem tenho vontade de acordar. Mesmo com os remédios, eu choro muito.
A voz da senhora era muito amorosa, transbordava amor. A outra tinha uma voz carente, de quem precisava de conforto.
- Escuta: você tem que tirar os remédios. Aos poucos.
- Eu já tentei, mas não consigo.
- Aos poucos… Tome chá de camomila. É bom. Você sonha com ele?
- De vez em quando.
- Eu sonhava muito com o meu filho na época em que ele morreu. Hoje eu sonho menos, mas outro dia sonhei que ele segurava o meu rosto e suas mãos eram muito quentes. Acordei sentindo aquele toque. Era tão real…
- Está sendo muito difícil para mim. No fim do mês vai fazer um ano. O sol me dói, o sereno me dói, a chuva me dói. É como viver sem sentido, sem caminhos, sem amor. Qual é o nome da senhora?
- Conceição. Por causa de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. E o seu?
Aproximei o ouvido do banco da frente, mas não consegui ouvir o nome da outra mulher. Quando chegamos ao destino, olhei para as duas e nada pude lhes oferecer além de um sorriso doce, mas elas nem saberiam da minha cumplicidade, das batidas solidárias, das reflexões que tomaram conta de mim. Das lágrimas que queriam descer e abraçar a estrada. Nem saberiam que eu também tinha uma dor, a dor de um amor que não passaria daquele junho. Um amor contido, mas que se pavimentava lentamente. Eu também precisava de força porque aquela estrada não era a minha, me diziam as placas.
- Vai passar, despediram-se.
Era o fim da estrada, o início do destino, o meio da dor. O inverno já tentava me abraçar mas o frio nunca me confortou. O frio me machuca. Acordei suando, tentando lembrar para onde eu estava indo.
25.06.09 em: Quinta
Aline Leal
parceria sinhô muriço e sinháline
No mês de junho me misturo nas festas lá do sertão. Danço forró, pulo fogueira, caldo verde e muito quentão. Pra ver no altar dessa quadrilha, vestido de noiva, o maridão, pra me lembrar que depois de Santo Antonio, vem o dia de São João.
É muito frio lá na roça, tem pé-de-moleque e paçoca, tem beijo na boca e aperto de mão. Esse é o mês de São João!
Tem quadrilha animada, tem muié arretada, óia a cobra, rapazeada, é pura diversão: êta trem bão!
Correio-do-amor, maçã-do-amor, no arrepio da sanfona o cantador: anarriêeee, anarriêeee.
Fiquei todo animado, me afundei na barafunda, fui pular a fogueirinha e quase que queimo a bunda.
Pra mulecada espivitada, o estalinho é a diversão, mas pros marmanjo e pras muié, bão mesmo é o forrozão… Dança ele, dança ela, lá no céu sobe o balão, mexe mexe essa canjica, serve logo o salsichão.
Arranca-rabo, um vira-vira, a caipira quase pira! Mas que rebolado, tô ficando apaixonado no balanço do baião. Nisso eu sou bão!
24.06.09 em: Quarta
Tiana Maciel Ellwanger

Pipoca, pamonha, paçoca. Cachorro-quente e bolo de fubá com sanfona. A festa estava saborosa, mas o ar gelado atravessava as flores do vestido para doer nas costelas. Caminhei lentamente em direção à fogueira para aquecer os pensamentos de quentão.
Admirei o fogo como se fosse a primeira vez que visse a transformação da lenha em chamas e cheiros. Em passageiro, rumo ao céu. O homem velho se aproximou e lamentei por dividir o calor. E a observação. Em seguida, sem assunto, deixou-me a sós novamente, com a melhor companhia da noite.
O fogo é melhor que a tevê, imprevisível. Tentei adivinhar o caminho das próximas labaredas e errei. Imprevisível. Para desafiar seu poder, alimentei as chamas com o copo de quentão. Ele o lambeu e baforou um cheiro ruim. Joguei então a fita vermelha do cabelo. Em segundos, ela transformou-se em nada, assim como a fita azul. Arremessei o chapéu de palha, as chamas ignoraram os gritos em forma de estalos e o devoraram, cuspindo para o alto, como se quisessem amarelar as estrelas. Tirei as flores do vestido, uma a uma, e o presenteei. O fogaréu fez todas desaparecerem, sem me agradecer pelo regalo.
Estava pronta para descobrir o que aquelas flamas fariam com meu vestido, com minha pele e com meus olhos cor de mel quando a noiva desengonçada aproximou-se e me chamou para a quadrilha. Estavam precisando de um padre. Mas eu sou mulher. Não tem problema. Toma essa cruz. Rindo de frio, eu os abençoei.
23.06.09 em: Terça