Quanto vale
Aline Leal
Escrever dá trabalho. Escrever dá um trabalhão danado! A gente fica aqui um tempão em frente à tela branca do computador e esse maldito tracinho piscando na vertical como se cronometrasse os segundos para a minha derrota. Bandeira branca, amor – eu me rendo!
Nada daquele glamour que eu imaginava dos grandes autores dos grandes clássicos. Aliás, para que me dar ao trabalho, eu nunca poderei superá-los e sinto até vergonha. A criação literária poderia ter sido interrompida no século passado que não perderíamos nada, nada! Pelo contrário, daríamos mais atenção ao que realmente tem valor.
Mas não, nós os humanos, nós os seres racionais fazemos questão de deixar a nossa marca no mundo, de jogar um holofote sobre nós mesmos. Como se disséssemos: olha pra mim, mamãe, eu sou um ser muito especial! Cresçam crianças! E ganhem um pouco de senso do ridículo!
Confesso que no meu caso, como no de muitos, escolhi ser escritor para aumentar minha moral com as mulheres. Que erro, como estive equivocado neste mundo de Deus! Vejam vocês o poema de amor que escrevi para Bárbara, aquela que pensei ser a mulher da minha vida, que piada:
Barbarazinha, se você não me amar,
ou eu te mato, ou eu vou me matar
A ingrata não enxergou a metáfora e achou que eu era algum tipo de psicopata. Isso é o que se chama de incompreensão artística! Será que ela achou que eu seria mesmo capaz de morrer ou matar por ela? Minha vida pode valer pouco, mas eu estava era fazendo um charminho literário.
Já não nos resta mais nada. Dinheiro? Nunca tive essa ilusão. Glamour? Só se houver algum encanto em ser mal-sucedido. Liberdade? Escritores são prisioneiros si mesmos. Mulheres? Estas estão fugindo de nós. Será que é tarde demais para escolher ser médico?
E os finais? Já nos roubaram todos os finais possíveis. Eu não posso mais matar o meu protagonista no final. Ele se suicidar é ridículo de tão óbvio. Casar? Só se eu acrescentar um posfácio explicando que eles se separaram depois. E então há aqueles finais pseudoalternativos:
Ele parou de escrever e sentiu sobre si todo o peso de suas escolhas. Sabendo que elas formavam aquilo que ele era hoje e que, por mais desastrosas que pudessem lhe parecer, foram a única saída que encontrou para o mundo em que viveu. Mudar? Seria possível para frente, conquanto o desejo fosse consciente e verdadeiro, sem esquecer a inconsistência de escaparmos de nós mesmos.
03.06.09 em: Quarta