Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postMiseráveis

Tiana Maciel Ellwanger

          Ela dançava e dançava, sem se preocupar com o que pensava e pensavam. A música entrava pelos pés e latejava no centro do corpo, entre as costelas, onde a angústia, quando chega, aperta. E apertava há duas semanas, cessando apenas no sono.

          A perda de Bel, que deveria estar ali dançando com ela, fazia Ana chorar, sem parar de dançar. Morte estúpida, atropelada pela bebida, pensava e bebia para esquecer a amiga enquanto lembrava e chorava, soluçando entre os flashes estroboscópicos que iluminavam suas lágrimas a cada segundo e meio. Ninguém percebia ou ela não percebia ninguém.

          Alfredo bebia uísque porque podia pagar e mostrar que podia pagar. Passou a mão na cintura da moça rumo ao banheiro, com a certeza da rejeição. Ao olhar reprovador dela, respondeu com beijos ao vento. No segundo gole do terceiro copo, virou para a pista e parou os olhos em Ana, dançando, sozinha, esfregando os olhos, depois com a mão entre as costelas, abaixo do coração.

          Não seria difícil, dançava sozinha porque sozinha não queria ficar. Esperou até alguém chegar junto dela, mas nenhuma amiga, nenhum homem aproximou-se. Foi até Ana e, por trás, colocou a mão em seu quadril. Levou um empurrão que, por reflexo, teve vontade de devolver, mulher maluca, mas foi impedido pelos olhares de espanto ao redor. Ela olhava com raiva e lágrimas, já sem dançar.

          Ele pediu desculpas pelo susto, ela pediu que ele saísse, ele implorou pelo nome, ela disse que não queria conversar, ele disse que ela deveria, ela disse chega, ele disse que não entendia, ela disse que só queria dançar, ele disse que não se preocupasse, ela insistiu que fosse embora, ele disse que pagaria uma bebida, ela disse que não queria, ele disse, sorrindo sarcástico, que a consolaria. Ela gritou: Sai daqui, seu miserável! Ele, com vontade de socar-lhe a cara, respondeu no mesmo tom: ‘idiota’, ‘miserável é você com esse cabelo ruim’, ‘chora mesmo, sua vaca gorda’. Ela teve vontade de matá-lo e, soluçando de raiva, pediu, ajoelhada, que Bel voltasse para um abraço, o último que fosse.

          Olhou em volta na esperança de ver a amiga voltando do banheiro, falando sobre o Leandro, e festejando, com pulinhos, a música que tocava. Só viu olhares de pena. E chorou, com as mãos puxando forte chumaços de cabelo, ao lembrar da última conversa com Bel, antes do fim: Amiga, vamos ao show, é o Sorriso, vamos? Tô sem grana, Ana, não vai dar, vou tomar uma cerveja por aqui mesmo. Pena (disse sem insistir), então nos vemos amanhã. Antes do amanhã, recebeu a ligação que a fizera entrar em desespero. Isabel morrera atropelada, não viu o ônibus quando saiu do bar, disse a voz ao telefone. Desespero que voltava agora com a mesma intensidade, sem Bel, sem o abraço, sem dança, só com a miséria, sua e dos outros.

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09.06.09 em: Terça



6 Comentários »

  1. Aline disse:

    Esse Alfredo é muito malvado: ‘miserável é você com esse cabelo ruim’, rssssss.
    Mas na verdade o texto é meio triste, o problema é que nunca sabemos quando os outros vão partir, e não dá pra ficar se despedindo a cada encontro!!!
    Gostei do parágrafo que começa: Não seria difícil, dançava sozinha porque sozinha não queria ficar… mas acho que o Alfredo tava errado, ela queria mesmo ficar sozinha… esses homens são muito prepotentes!

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  2. Lúcia Gomes disse:

    Tiana,

    Seu conto triste e deseperado vai na volúpia dos fatos que acontecem inesperados. Veja a quantidade de vírgulas no primeiro período do quinto parágrafo. Muito bom! Vírgula é aquela paradinha leve para tomar fôlego.

    Um conselho de amiga, se me permite. Eu teria parado o conto na frase “então nos vemos amanhã”, porque Bel continua com Ana em todos os amanhãs que se sucederão.

    Um abraço carinhoso, Lúcia Gomes

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  3. Francisco R. Perico disse:

    “A música entrava pelos pés e latejava no centro do corpo, entre as costelas, onde a angústia, quando chega, aperta”.

    Belo trecho.

    Inevitavelmente seu texto me reporta aos “Miseráveis” de Victor Hugo, onde a angústia que Ana sente está sempre presente na alma do personagem
    Jean Vajean.

    Bjs

    Francisco.

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  4. Raquel disse:

    Adorei a dança, o ritmo, o tom.
    Beijos,
    Raquel

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  5. Tiana disse:

    Aline, o Alfredo é um miserável, né? rss

    Lúcia, que bom que gostou. Sugestões são sempre bem-vindas. Curioso você falar isso, porque pensei mesmo em terminar no “amanhã”, mas senti falta de uma explicação melhor para a morte da amiga, “atropelada pela bebida”, e para o desespero de Ana.

    Francisco, esse é o trecho que mais gosto também. Eu amo os “Miseráveis”.

    Raquel, que bom que gostou…

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  6. Mara Lúcia disse:

    No início me lembrou o filme Chocolate com todos os meandros e histórias pessoais, neste misto de tristeza dentro de uma psicologia que não quer ficar triste, então dança e bebe… mas ela sempre estará com a amiga, pois sentimentos nunca se perdem.

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