Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postEstradas do amor

Raquel C. de Medeiros

 

A viagem seria longa. Quando as duas começaram a conversar no banco da frente fiquei um pouco aborrecida: eu queria ler ou dormir e as vozes me atrapalhariam. Depois a conversa foi puxando meus ouvidos.

- Vai passar. Dói muito, mas vai passar.

Pelas vozes, percebi que a que estava na janela era uma senhora de uns setenta anos. A outra era mais jovem. A senhora falava mais alto, mas a outra quase sussurrava e eu não podia ouvi-la direito.

- Eu não consigo viver sem os remédios, consegui escutá-la.

- Tem que ser forte. É muito doloroso, eu sei, mas vai passar. Fiquei um ano sem trabalhar, sem disposição para nada, mas passou, disse a senhora.

- Eu não me conformo. Acho que nunca vou voltar a ser a mesma. Tenho a sensação que nunca mais vou conseguir voltar a sentir aquela alegria natural de viver.

- É preciso ser forte, mas vai passar, estou te falando, vai passar. Você acredita em Deus?

- Acredito… Mas mesmo assim, não tenho força o suficiente. Não consigo dormir, nem tenho vontade de acordar. Mesmo com os remédios, eu choro muito.

A voz da senhora era muito amorosa, transbordava amor. A outra tinha uma voz carente, de quem precisava de conforto.

- Escuta: você tem que tirar os remédios. Aos poucos.

- Eu já tentei, mas não consigo.

- Aos poucos… Tome chá de camomila. É bom. Você sonha com ele?

- De vez em quando.

- Eu sonhava muito com o meu filho na época em que ele morreu. Hoje eu sonho menos, mas outro dia sonhei que ele segurava o meu rosto e suas mãos eram muito quentes. Acordei sentindo aquele toque. Era tão real…

- Está sendo muito difícil para mim. No fim do mês vai fazer um ano. O sol me dói, o sereno me dói, a chuva me dói. É como viver sem sentido, sem caminhos, sem amor. Qual é o nome da senhora?

- Conceição. Por causa de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. E o seu?

Aproximei o ouvido do banco da frente, mas não consegui ouvir o nome da outra mulher. Quando chegamos ao destino, olhei para as duas e nada pude lhes oferecer além de um sorriso doce, mas elas nem saberiam da minha cumplicidade, das batidas solidárias, das reflexões que tomaram conta de mim. Das lágrimas que queriam descer e abraçar a estrada. Nem saberiam que eu também tinha uma dor, a dor de um amor que não passaria daquele junho. Um amor contido, mas que se pavimentava lentamente. Eu também precisava de força porque aquela estrada não era a minha, me diziam as placas.

- Vai passar, despediram-se.

Era o fim da estrada, o início do destino, o meio da dor. O inverno já tentava me abraçar mas o frio nunca me confortou. O frio me machuca. Acordei suando, tentando lembrar para onde eu estava indo.

 

 

 

 

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25.06.09 em: Quinta



6 Comentários »

  1. Tiana disse:

    “Das lágrimas que queriam descer e abraçar a estrada.” E desceram. E abraçaram. Belo texto.

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  2. Ana Clara disse:

    Que linda despedida amiga…

    “O Sol há de brilhar mais uma vez
    A luz há de chegar aos corações
    Do mal será queimada a semente
    O amor será eterno novamente”

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  3. Manu disse:

    MUITO LINDO! MUITO BOM!

    INSPIRADOR!

    Beijos amiga,
    Manu

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  4. Maria Mazzei disse:

    Simples e lindo!!!
    Saudades de vc.
    bjs

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  5. Maria Mazzei disse:

    Simples e lindo!
    Saudades de vc.
    bjs

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  6. Lúcia Gomes disse:

    “A viagem seria longa”. é quase como um presságio da tragetória dura de quem tem que seguir adiante e esperar “o fim da estrada”, “o início do destino”. “Aquela estrada não era a minha”. Nunca é, Raquel. Um filho partir antes da mãe foge a ordem natural da vida. “Das lágrimas que queriam descer e abraçar a estrada” …é belíssimo.

    “Minhas lágrimas saciariam a sede de um deserto”, eu escrevi. E lhe digo: o deserto ainda é um deserto.

    Com o meu carinho,
    Lúcia Gomes

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