Gazza
Quero você, sem poder tocar
Quero você, sem poder beijar
Quero você, sem poder olhar
Quero você, sem poder desejar
Quero você, sem poder mergulhar
Quero você, sem poder acordar em você
Quero você, sem em você poder passear
Quisera eu poder quebrar esses limites
31.07.09 em: Sexta
Raquel C. de Medeiros

Roberto,
Outro dia ganhei uma maçã no meio da rua e me lembrei muito de você. Foi uma das maiores surpresas (e coincidências) dos últimos tempos: não é muito freqüente eu sentir vontade de comer maçã. E menos ainda ganhar uma no meio da rua (e no mesmo dia!). Mas a vida ainda surpreende, Roberto (graças a Deus!). É claro que fiquei rindo sozinha e tentando desvendar o simbolismo daquele acontecimento. A maçã, Roberto, estava embalada em uma caixinha de papelão e me foi entregue no sinal de trânsito por um rapaz contratado pelo horti-fruti que vai abrir perto da minha casa.
Roberto, você acredita que eu estava falando de maçã havia dois dias? Não é historinha não, falo sério. A maçã era pequena e quase indecente de tão apetitosa. Tive vontade de correr para casa e guardá-la, mas eu estava a caminho de um compromisso. Então tive que esperar.
Senti vontade de contar para todo mundo a história da maçã, como se algo muito extraordinário tivesse acontecido. Mas depois pensei que alguns não dariam a mínima importância para a história da minha maçã. Pensei em ligar para você, mas há tanto tempo a gente não se fala, né? Desisti porque não dá pra ligar para alguém que você não fala há um tempão e sair contando uma história dessas: é preciso todo um preâmbulo e eu queria mesmo ir direto ao assunto. Você poderia achar que estou ficando maluquinha, mas sei que teria gostado de me ouvir.
Enfim, Roberto, resolvi então ligar para a minha mãe e compartilhar essa história com ela, já que naquele mesmo dia eu havia manifestado o meu desejo de comer uma maçã. Mamãe compreendeu a minha euforia e também se impressionou com a coincidência mas não sei se foi além nos pensamentos como eu. Ou talvez tenha alcançado mas sabiamente se calou. Na minha família não se comenta algumas coisas. Acho que deve ser a última das últimas: hoje em dia todo mundo fala tudo, às vezes levo até susto com as intimidades reveladas ao redor da mesa, mas eu tenho a alma velha. Lembra, Roberto, da minha teoria sobre alma nova e alma velha? Você ficava pensativo e acabava embarcando na minha, eu percebia.
Mas finalmente cheguei em casa, Roberto, e pude curtir a minha maçã: tirei-a da caixa, lavei a fruta e admirei a sua beleza antes de guardá-la na geladeira. Coloquei-a bem exposta, dessa forma, quando eu abro a porta, ela está lá, lembrando-me do que essa vida é capaz. O mais estranho, Roberto, é que agora, que ela está ao meu alcance, eu não sinto vontade de comê-la. Segunda-feira comi os morangos, terça e quarta assei bananas. Hoje é dia de cerejas, Roberto, mas ando pensando em assar a maçã com canela e conhaque e oferecê-la para o meu amor. Seria uma espécie de ritual para que eu seja para sempre seu paraíso. Estou apaixonada, Roberto, calma e apaixonada. Apesar de você não ter me dado alta na terapia, sinto-me melhor do que nunca. Mas tenho saudade das nossas sessões, sempre tão profundas, Roberto. Você ainda é um dos poucos que me conhecem bem.
Com macieiras dentro de mim,
Lorena
30.07.09 em: Quinta
Aline Leal
Deitada assim ao seu lado, encolhida
Eu sinto esse choro contido, que aquece
o meu peito em vontade à verdade a ser dita
e não digo
Coalhado o meu sangue, emperra o vagido
Grosso ele desce, em baga, e eu sinto
A larva de alcance a tumor laríngeo
Como sem água tomar comprimido
E eu acho que agora eu quero um cigarro
Ou uma desculpa pela zangurrina
Peço que tirem as crianças da sala
Pois estou zonza, zonzinha e vou acabar caindo
Como em pesadelo eu tropece
Em meus nervos nervosos capote
Teça o mote e aposto: vou acabar caindo
E como sermão que repete
Voltar arrastando o cóquix
Então pra calar a boca
Eu que, sem ser louca
– mesmo tendo apreço, posto que me encanta –
Esqueço a janela aberta à papaia pubiana
E uma vez despida
A nudez esconde
tanta gordura contida
E eu continuo com fome
Alguém me traga comida
29.07.09 em: Quarta
Tiana Maciel Ellwanger
Sexta-feira, 10 de agosto de 2251
Saí da Clínica Maternal com a nossa filha encomendada: olhos azuis, cabelos negros e crespos, pele de jabuticaba e QI de 250. Os geneticistas garantiram, depois de examinar o cabelo da bisa Elizabeth, que a Sára (eu, Curvele e Duda escolhemos o nome ontem) seria sinestésica e sentiria gosto de amêndoas ao ouvir samba-trance. Eles também me prometeram que Sára não gostaria de homens.
Almocei com Curvele e Duda no restaurante ártico de sempre, mas o teletransporte me deu dor nas costas, de novo. Depois da pílula de cannabis orgânica, tomamos vinho de soja para comemorar nossa tripla maternidade, que, agora, só dependia de uma encubadora disponível. A salada de algas terrestres estava deliciosa, mas o melhor foi a sobremesa de noni.
Por volta das 16h, chegamos à reunião no Unidos Contra os Vírus e pelos Direitos dos Animais Ressuscitados. Mas, pra variar, o encontro perdeu o foco porque Lisa Obama passou metade do tempo defendendo a cota para homens nas pesquisas avançadas sobre o super acelerador de partículas. “A situação está saindo do controle. Eles sequestraram indianas e ameaçam reproduzir-se à moda antiga se não devolvermos poderes a eles”, ela dizia, implorando mobilização pelo holograma.
À noite, fomos no novo Clube de Sexo Grupal por Telepatia, que abriu na Ilha Três, com apresentação de yôga-sutra de Feri e Jaçanã. Lindas, juntaram-se a nós depois do show. A massagem nos pés pelos toques cerebrais foi surpreendente; Duda também teceu elogios sobre a preliminar. Curvele achou Jaçanã engraçada.
Segunda-feira, 13 de agosto de 2251
A dona da clínica me chamou na tela ovalada. Atendi nervosa, mas me tranquilizei ao ver seu sorriso. A incubadora estava pronta, estamos grávidas! Curvele e Duda quase choraram quando contei.
Sexta-feira, 17 de agosto de 2251
Duda me chamou dizendo que Feri e Jaçanã nos convidaram para o Clube de Sexo, agora na Ilha Seis. “Vamos ter uma filha”, eu disse. E ela concordou quando falei que, por mim, agora seríamos só nós três, pelo menos enquanto estivéssemos grávidas.
28.07.09 em: Terça
Luciene Braga
Decidiu ser escritor porque se achava incapaz de ser médico, dentista ou juiz. Professor até poderia, mas só quando ficasse mais velho. Não tinha paciência.
Era escritor porque sentia muita pressão em todas as horas do dia. Mesmo de madrugada. Parecia tesão. As histórias se formavam. Sonhava com gentes que tinham enredo. Pedindo só um pouco para virar ficção. Quando conseguia entender aquelas vozes mudas – sempre achou seus sonhos um pouco mudos – transcrevia.
Se soubesse que daria tão certo, teria até se submetido a laboratórios de estudos do sono, para evitar tantas perdas técnicas. Pudera, seus sonhos traziam personagens, no mínimo, palpitantes.
Passava dias trancafiado entre o colchão e o laptop, além de comprimidos e umas garrafas de vinho, que ajudavam a atiçar o sono, porque nunca foi muito bom nisso. Até que em um sábado repentino, chapou e logo depois foi acordado por um dos personagens, um boxer abandonado pela mulher. Ele, que se acostumara a acordar sempre que se sentia em perigo, não tinha a oportunidade de fazer o mesmo agora, refugiar-se no mundo dos sonhos.
O boxer estava desesperado. Com jeito de não dormir dias.
Não mais que ele. A expressão do homem lhe deu o endereço certo: um novo bar com dançarinas no centro financeiro. O boxer aceitou o convite, desde que pagasse, acertou. E ele, escritor, sentiu o primeiro surto de curiosidade varrer-lhe o equilíbrio cardíaco.
Nada poderia ter dado tão certo. Tiber logo fez amizade com um bando animado. Contava histórias loucas e um deles, que era de teatro, encantou-se. Tudo corria bem como noites de homens quando o seu boxer deu um salto e quase tombou a mesa, com olhos arregalados.
“Lira!”, gritou.
Sua mulher, avistou, dançava iluminada por um canhão de luz dourada, quente. Paralisou. E toda a casa escura com ela. Ou ele. O som desceu. “Stand by me…”. Ela respirou e continuou a sua dança na lentidão sensual fabricada. Olhava para ele e para os outros homens com a certeza do domínio tipo 15 minutos e making of de ensaio fotográfico. Mas homens se rendem ao fetiche pobre. Perdem fala e juízo. E também o ar.
“Lira!”, ele repetiu, dessa vez, em som gutural.
Segura, ela caprichou nos movimentos, desafiando o homem que conhecia e deixara.
“Lira”, balbuciou e sentou-se, humilhado. Em nada lembrava o cara divertido de segundos antes.
A dançarina desapareceu na rotunda depois de sua curta apresentação.
O escritor se encolheu na cadeira. Procurou o boxer e viu que usava suas roupas e bebia suas bebidas.
Saiu sem pagar e sem vingança, que isso não funciona nos sonhos.
Correu ao banheiro e viu, no espelho, o quanto Lira ainda lhe fazia doer o peito.
27.07.09 em: Segunda
Gazza
Da luz dos olhos seus
Das histórias de nós dois
Dos amores partidos
Das ruas da minha infância
Dos passeios de pijama
Do doce presente em cima da mesa
Do amanhecer no subúrbio
Do passeas de nossas mãos
Do beijo desejado
Do sabor da cachaça
E, de tudo, da imensa saudade que ficou….
24.07.09 em: Sexta