Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postGuarujara

Aline Leal

Me mudei pra cá depois da enchente do Rio Guarujara, quando os povos ribeirinhos ganharam casa do governo na capital e passaram a prestar serviços para a elite de lá. Antes, era eu que morava na capital, era advogado recém-formado e ia ser efetivado num escritório de direito tributário. Vim pra cá justamente quando eles foram pra lá, suas casas haviam sido destruídas quando o rio subiu alguns metros no verão e eles ficaram traumatizados e loucos para serem remanejados para um lugar bem longe da margem de um rio.

Então, eu me mudei pra cá. Sozinho mesmo, e sem nenhuma licença do governo, apenas me apossei de um barracão e fiz dele minha casa. Fui recolhendo aqui e ali algum móvel deixado para trás: uma cama com um colchão velho, porém muito macio, com uma tábua de madeira e uns pedaços de pau fiz eu mesmo uma mesa, arrumei duas cadeiras e objetos para o dia a dia, como talheres, copos, panela e um facão que costumo usar preso à cintura, como hábito, não por necessidade.

Aqui tem peixe em abundância e uma ou duas vezes por mês algum pai de família vem comprar uma boa quantidade da minha pescaria para levar à sua casa. Eu, por vez, vou à capital o mínimo necessário quando preciso comprar um quilo de arroz e feijão e um litro de cachaça, porque a água aqui do rio é potável e há frutas docinhas para colher no pé.

Há mais ou menos um ano uma jornalista veio fazer um documentário sobre o único homem que vivia no Guarujara, apaixonou-se por mim e pelo meu estilo de vida e resolveu mudar-se para cá e viver comigo. Formamos um casal legal e eu lhe passei algumas tarefas de mulher que ela faz com gosto, é verdade que às vezes reclama, mas eu tenho sempre a orientação certa que faz com que ela entenda o valor de cada trabalho. É uns vinte anos mais nova que eu e sei que gosta de me ouvir discorrer sobre as coisas da vida, do homem e da sociedade.

Aqui não preciso de dinheiro como os homens da capital precisam e passa longe de mim a ideia de acumular e gastar. É curioso lembrar como o dinheiro rege a vida do pessoal lá da capital enquanto aqui ele pouco tem a ver com a minha vida. Ás vezes, sento-me à margem do Guarujara com os olhos fixos nas águas que fluem em direção ao mar e o pensamento longe em uma pergunta: por que o homem tornou-se tão submisso?

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01.07.09 em: Quarta