Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postO banquete

Luciene Braga

goiabadaO Criador, ao obrigar o homem a comer para viver,
o incita pelo apetite, e o recompensa pelo prazer.
Brillat-Savarin

 

 

 

 

 

         Preparou a mesa, com requinte que jamais fez parte de sua educação, mas a ocasião, para a revelação que estava impelida a fazer, pedia requinte.
Toalha branca, velas, talheres diversos bem dispostos, louça branca e taças. Velas brancas. Castiçal idem.
         Vinho branco, tinto e água. “Só quem não tem amor bebe vinho sem água”, disse, no mesmo tom que ouvira da personagem de um filme antigo. “É o segredo do equilíbrio de duas coisas difíceis de equilibrar: amor e vinho”, dizia Mme Soireé. Azeite e pão de nozes para abrir o apetite. Provou várias partes. Folhas de hortelã enfeitavam a mesa.
          Ela mesma fez o jantar. Salada de orelha de porco, para começar, que comera em encarnações passadas em uma tasca de Lisboa. Isso porque nunca foi a Lisboa, mas era praticamente uma lembrança esse prato na Tertúlia dos Sabores.
          Precisava agora cuidar do arroz de castanhas e do assado de vitela ao molho de ervas. “O cheiro é só o começo”, disse, em voz alta, sorrindo. Ela, que já trabalhara em lanchonetes 100% óleo de soja. “Condizia com meus desejos à época”, pensou.
          Tudo pronto, faltava ela, o desvelado prato principal, tomar um banho e vestir-se à moda. Prendeu os cabelos para o alto, usou um vestido âmbar e um perfume discreto. Masculino, que descobriu que os homens gostam de perfume de homens. Testou, em seus tempos da casa de favores sexuais. Isso valia para os pobres e endinheirados. Um segredo que guardava.
          Quando o marido chegou, ficou encantado com as folhas de hortelã, com a luz e, principalmente, com ela, que combinava perfeitamente com a casa. “Você consegue ofuscar a vista daqui. Pouco consigo prestar atenção na paisagem”, disse, inteiramente excitado. “Sei que tem fome. Terás o que mereces”, disse, com voz de feiticeira. Orgulhou-se dela, que o sentou, aos beijos. E sorria, como poucas vezes viu. Serviu e comeram, cada parte do jantar. Calmos e seduzidos entre sabores tão ativos.
          Quando ele terminou a sobremesa de sementes de amboranas, ela então se sentou mais perto e… sentiu uma vertigem tão intensa que perdeu todos os sentidos. Queria gritar, mas não conseguia. Desfaleceu.

          Acordou com gosto de calda do tacho, ofegante, em seu quarto escuro, estremecido pela passagem do metrô.
          Suava. Jurou que compraria um ventilador novo. 
          Sentia fome. Correu até a geladeira e lá estava a solução: angu e miúdos. Para finalizar, romeu e julieta. Chegou a sorrir.
          “Tudo bem, minha paçoquinha?”, gritou o marido, lá de dentro, do quarto.
          “Tudo, meu quindim. Já volto pra cama. Só deu uma fomezinha”. E se foi, levando, com olhar de quem ainda queria mais, morangos da promoção, lavados, que deixou ali, para a hora certa de despertar o marido, como fazia todos os dias, antes de caírem na labuta.
          ”Ah”, ele gemeu. “Esse perfume me enlouquece”, admitiu, com uma voz que a deixava mais derretida que calda de caramelo e puxou-a para a cama, mal conseguia conter a fome. “É de homem”, brincou, divertindo-se.
          O banquete estava servido.

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31.08.09 em: Segunda

postPelo telefone

x Convidado Sábado x

Por Rozane Monteiro

- Te acordei?
- Num domingo, às sete e meia da manhã? Nãããããão… Tá maluco, cara? Isso é hora? Que que foi, porra? Só perdoo se foi alguma desgraça!
- Tu sabe que sempre gostei de mulé, né?
- …
- Não sabe, porra?
- Ai, caralho. Sei, claro que sei. Qual foi a merda que tu fez pra me ligar a essa hora com esse papo?
- Pois é…
- Vai falando, cara, tá me deixando nervoso.
- Acho que não vou ter coragem…
- Tu me acorda num domingo de madrugada e, agora, não quer falar? Desembucha logo.
- Não, não vou ter coragem. Foi mal. Tchau.
Liga de novo.
- Tá bom, eu conto.
- Puta que o pariu, Samuca. Conta logo, pelo amor de Deus. A gente se conhece há 40 anos. Na boa, cara, se tu fez alguma merda grande, não vai ser nada que vai me dar susto. Eu sou teu irmão, cara. Se precisar de advogado, tem o Pedro Ricardo. Se for merda grande, dá pra acionar ele agora.
- Bebi pra caralho ontem…
- Novidade…
- Aí, na volta pra casa, resolvi tomar a última, sozinho, depois de deixar a Lara em casa.
- Que Lara? Essa tu não me contou.
- A Lara, cara, a Lara do Marketing.
- Ah, tá… Ih, aquela gordinha? Tu pegou?
- Ela é um mulherão, mané. Manda bem paca na cama, toda culta, engraçadona. Foi lá pra casa. Me deixou doido. Valeu a grana que eu gastei no jantar no Alcaparra.
- Tu levou a gorda no Alcaparra?
- Porra, cara, fala assim, não, a mulé é maneira.
- Ãrrã, ãrrã, ãrrã… Tu tava era na seca. Ou tu acha que eu esqueci que tinha mais de mês que tu não…
- Tá, eu sei, eu sei. Mas deixa eu acabar de contar.
- Foi mal. Fala aí.
- Então, deixei ela em casa e fui tomar a última. Até pensando nisso mesmo: “Pô, nunca tive tesão por mulher gordinha, mas a Lara é, sei lá, diferente, uma gordinha gostosa, sabe?
- Ai, meu caralho, tu tá apaixonado, é isso? Me acordou pra dizer que tá apaixonado pela gor… foi mal, pela Lara?
- Não, eu te acordei pra te contar a parada que rolou depois que fui tomar a última naquele boteco, aqui, perto de casa.
- Já sei, se encachaçou e pegou a primeira mulé magra que tu viu, pra matar a saudade de filé, acertei?
- Porra, cara, tu é foda.
- Eu, né? Tu me acorda num domingão, enrola pra caralho pra contar o que tem pra contar, e eu é que sou foda?
- Dei o cu, cara. Dei o cu. Pronto, falei.
- …
- Fala alguma coisa.
- …
- Cara, pelo amor de Deus, fala alguma coisa.
- Não consigo. Caralho, Samuca, caralho, que papo é esse, meu irmão?
- Pô, cara, quando eu tava lá, a coisa toda rolando, lembrei na hora de você.
- Que porra é essa, cara? Tá maluco? Lembrou de mim, como assim, como assim, Samuca?
- Não é isso que tu tá pensando, porra. Lembrei porque, quando tava rolando, fiquei pensando em como é que eu ia te contar. Tu é meu irmão, cara, tu é meu irmão.
- Tá, tá, já entendi.. Mas, cara… Samuca… Samuca, meu irmão,  tu tem 54 anos. Como assim, deu o cu? A essa altura da vida, meu Deus do céu? Como assim, maluco?
- Eu não sei. Quando vi, já tava dando.
- Na boa, eu não sei nem o que dizer.
- E eu não sei o que fazer.
- O pior tu já fez, né?
- Ele já ligou agora de manhã. Pra ver como eu tava.
- Acho que vou vomitar.
- O cara falou que ia me ligar hoje, e ligou, cara. O cara ligou.
- Samuca, pelo amor de Deus, tu quer me enlouquecer? Você não deu o cu, só, tu tá é pagando paixão por um macho. Puta que o pariu, Samuca, puta que o pariu. Será que eu posso, pelo menos, saber quem é o bofe, mona?
- Quer parar de sacanagem?
- Tu dá o cu pela primeira vez aos 54 anos… Foi a primeira vez, né?
- Foi, eu juro.
- Pois é, tu dá o cu pela primeira vez aos 54 anos, me acorda com essa bomba, e eu, eu, que te conheço há 40 anos, não posso nem perguntar pra quem? Vá se fuder. Vai falando.
- Pro Milton.
- Que Milton, cara pálida.
- Aquele artista plástico.
- Hein?
- 43 anos.
- Meu pai do céu… Peraí, é aquele que vivia fazendo poesia na mesa do boteco, chorando por causa duma mulé, a tal da …?
- …Laura. Ele mesmo.
- Ele também é viado?
- “Também” é o caralho.
- Foi mal, foi mal.
- Pô, cara, dá um tempo, tô muito na merda… Deixa eu contar.
- Tá bom, fala.
- A gente acabou batendo papo no balcão. Ele começou falando da Laura dele, eu fui falando da minha Lara, e, daí… daí, cara, não lembro mais de nada. Foi muita cachaça. A gente tomou uns oito uísques, sei lá. E eu já tinha bebido vinho pra caralho com a Lara, mais o licorzinho depois que a gente se comeu.
- Eu já cansei de tomar mais de 10 uísques e nunca dei o cu, porra. Para com essa merda. Tu tava era afim. Porra, cara, a gente cansou de se encachaçar junto. Na boa, tu já quis dar o cu pra mim? Fala aí, porra, fala aí.
- Não, né. Tu é meu irmão, cara, tu é meu irmão. E ontem também não tava afim, cara, eu juro. Tava, não. Não tava nem pensando nessa porra. Mesmo. Mas sabe quando a gente fica bebum e não liga mais pra porra nenhuma?
- Sei, não, cara, sei não, sei dessa porra não… Mas, vem cá, tu carregou o bofe pra casa?
- Pois é. Nem lembro mais como ele foi parar lá em casa. Só sei que, lá pelas tantas, acordei e dei de cara com o sujeito na minha cama. Sem roupa, cara, sem roupa, peladão, roncando igual a um porco. Mulé minha sempre reclamou que eu ronco pra caralho, e eu sempre achei babaquice. Mas é uma merda mesmo, cara, é uma merda, deu vontade de enfiar a mão pro cara parar de roncar. Aí, quando eu acordei, também vi que tava com uma dor no cu esquisita; a cara ardendo, meio arranhada. Ele tava sem fazer barba tinha uns dois dias.
- Eu vou vomitar.
- Tem mais.
- Puta que o pariu…
- Eu comi o cara também. Depois que ele foi embora, é que eu lembrei. Lembrei quando olhei pra mesinha de cabeceira e vi a garrafa de Frangélico vazia, dois copinhos de licor usados. 
- Caralho.
- O pior é que amanhã eu tenho exame lá no Doutor Jaime, aquela porra da próstata. Não consigo parar de pensar nisso. Será que ele vai sacar?
- Pensa bem, analisa: vai ficar mais fácil agora, né?
- Vá se fuder.
- Foi mal.
- Cara, na boa, eu preciso conversar. Preciso desabafar, irmão. Posso ir aí?
- Manda por e-mail, Samuca. Manda por e-mail.

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29.08.09 em: Sábado

postNa plateia…

Gazza

- Disfarça, vai – disse a morena, enquanto o namorado levantava, suavemente, o curto vestido. Por baixo, apenas a pele, doce, meiga, com os pelos arrepiados.
- Coisa deliciosa – sussurrava o namorado ao ouvido da mulher.
- Agora mete, devagar – pedia, imediatamente a morena, já à flor da pele.
- Mete com a música, vai. Assim, nesse suingue…

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28.08.09 em: Sexta

postLinda blefadora

Raquel C. de Medeiros

disfarce

Quando as estrelas de Ana são atiradas no chão, ela cria um céu literário para fazer brilhar a sua dor. E então pode novamente olhar para o alto e sorrir, ela, cujo maior talento é se esconder. Das indelicadezas, da solidão. O pique nunca está com essa moça porque é a dona da brincadeira. Sempre a procuram nos principais personagens, mas engana a todos e diverte-se, escondida onde ninguém aposta. Ana pode estar debaixo da saia rodada da voz secundária ou estendida sob a falta de pontuação de seus textos, é despontuada desde menina. E tem um jeitinho tão confiável que ninguém imagina: deixa pistas falsas entre as verdadeiras e leva todos aonde quer. Chegam a encostar em sua pele, a tatear seus pensamentos. Mas o pique ainda não está com Ana, a linda blefadora, como apelidou ele, o primeiro a descobrir as duas cores dos seus olhos. A ambigüidade dos escritores. Aquele que adivinha seus esconderijos e apaga a luz para garantir-lhe privacidade. E ficam se entreolhando na escuridão enquanto a leitura é eternizada nesse céu de colagens, onde as falsas estrelas são encontradas como se fossem preciosidades. Ela sorri, tão vulnerável e desprotegida como todos nós. E já não consegue disfarçar o medo de ser descoberta antes do ponto final.

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27.08.09 em: Quinta

postCiranda Disforme

Aline Leal

Gaga, é só uma bela corcunda.

Gasta corrente do gozo à cratera.

Erma, o olho fulmina e não cura.

Olho, viaduto, ensina e soterra.

 

Estou ofegante e entro na sala,

Vasta por dentro de um corpo enlatada,

Tornado, os ventos, as nuvens, em crase.

 

Zero o que há de mais vital no vivo

Vozes passadas a ferro e crivo

Não é dourada a áurea que levito.

 

Ao vivo, creio no que é absurdo.

Doída, espero roendo o abissal.

Tolhida uma anti-intelectual.

Passada uma só em presente múltiplo

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26.08.09 em: Quarta

postHomem invisível

Tiana Maciel Ellwanger

          Com o controle remoto, apagou as luzes da casa. Pegou o elevador e pediu ao motorista para deixá-lo ali, naquele apartamento no Leblon, onde quase todos os convidados o conheciam e o bajulavam. Não hoje.

          Subiu pelo elevador de serviço, foi à cozinha e cumprimentou os que serviriam, junto com ele, os mais de cem convidados que em algumas horas estariam sem limites. Para a alegria dos contratados, pediu para servir pouco e limpar o que fosse necessário. E assim fez durante a festa: distribuiu espumantes, ofereceu vinhos tintos e brancos e caros, pediu licença para recolher os cacos de vidro no chão, que aumentavam conforme subia o grau etílico dos dançantes.

          Não ser notado foi mais fácil do que esperava. Na primeira meia hora, andava de cabeça baixa, virava o rosto ao encher as taças. Mas logo percebeu que ninguém olhava para seu rosto, que a única atração para aqueles homens e mulheres bem vestidos era o que levava na bandeja. Sim, estava gostando da experiência mais do que imaginava.

          Foi em direção à varanda. Ouviu seu nome e tremendo, por um momento, parou de limpar o piso branco estampado de vinho tinto.

         ― Ele não vai durar muito tempo na presidência. É muito passional. Lembra do dia que tremia ao falar à equipe que haveria demissões? Foi patético.

          Lembrou daquele dia triste e a sensação foi a mesma quando deu a notícia para os funcionários que o acompanhavam há anos. A angústia com a lembrança misturava-se agora à raiva com o comentário que acabara de ouvir. Quis continuar a escutar, mas achou arriscado.

          Na cozinha, os garçons riam da mulher de vestido longo que rebolava até o chão ao som de “Só as cachorras”. Ficou ali mais alguns minutos e divertiu-se, silencioso, com a autenticidade com que já não estava acostumado.

          Na varanda, novamente, o assunto ainda era ele. Surpreendeu-se com a defesa da secretária que nunca tinha olhado nos olhos. “O Jorge preocupa-se com as pessoas, defende o que acha justo”, ela dizia. “O cara cobre a careca com o cabelo para o lado. Só na Segure Bem isso acontece”, ria o homem que tantas vezes o substituiu em reuniões. Todos gargalhavam, até a secretária sorria, enquanto ele passava a mão no pouco cabelo e continuava a ouvir.

          “Gosto do Jorge, mas ele tem medo de arriscar. Uma seguradora vive de riscos, de ousadia. Não pode ter um medroso no comando”, acrescentava a mulher que ele promovera mês passado. As palavras que ele disse a ela, quando lhe comunicou o novo cargo, vieram a sua mente: “Olha, eu gosto muito do seu estilo, acho que tem muito a acrescentar à Segure Bem. Mas evite impulsos, lembra aquele contrato que você defendeu com a Voe Mais? Teríamos falido e estaríamos enfrentando processos de centenas de famílias que perderam seus entes queridos. Mas acho que você tem potencial”. A lembrança do sorriso dela com o dobro do salário e o triplo do prestígio ao sair da sala de reuniões quase fez com que ele atirasse, agora, a vassoura em sua direção. Quase.

          Ao ser deixado em casa, acendeu as luzes com o controle remoto, jogou-se na cama convidativa, esticou a coluna e assumiu a careca. Nos próximos meses, pensou, demitiria os infiéis, passaria mais tempo com a mulher, olharia nos olhos da secretária e, sim, seria garçom nas noites vagas.

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25.08.09 em: Terça
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