Crime Arquivado
Luciene Braga
Um certo Dostoiévski lhe dera munição para ir em frente. Não tinha opção. Ela entrou em sua vida e saiu na hora e no dia errados.Telefonou e marcou o encontro.
De lá, seguiriam para a casa de Correias, a uma hora dali somente.
No meio do caminho, teria tempo para falar tudo. Esparadrapo. Ela viajaria com um esparadrapo fechando milagrosamente a boca. Dessa vez, aproveitaria cada minuto para fazê-la ouvir o que nunca conseguiu dizer. Por medo, pena ou constrangimento. Levou um cd de música clássica. Ela, quieta, ao som de Adagietto, e ele falaria sobre tudo: as manias, o horror dos jantares que acabavam tão tarde que lhe roubavam o tesão. Sua quantidade insuportável de roupas, os filmes desnecessários, as estréias de teatro com gente que interpretava vanguarda, seus dois filhos que nunca nasceram e, por fim, seus amantes desclassificados. Robustos, morenos e com sorriso de James Bond de Maricá. E das amantes que foi obrigado a ter, igualmente perfumadas com exagero e tintas, muitas tintas, no corpo e no cabelo. Tinha muitas coisas a contar: que mandara roubar um dos carros dela, só porque o cheiro do amante ainda estava impregnado. Naquela noite, o cheiro que ficou nela desapareceria por completo, prometeu.
Chegou ao encontro e olhou-a rápida e disfarçadamente com desejo mórbido. Entendeu crimes e psicopatas. O ódio era absorvente e ácido. Convidou-a educadamente a entrar no carro e abriu a porta, e ainda fez uma brincadeira com os sapatos, comprados em uma das viagens a São Paulo. Ela sorriu, linda, e inclinou-se, maliciosa. O celular tocou, mas ela ignorou.
Também fingiu estar calma.
Não levou a vingança a cabo. Acertaram alguns detalhes financeiros e com quem ficariam os cachorros. Ela ganhou os bichos e algumas facilidades para pagar contas. Civilizadamente, ele pediu um táxi para ela. Crime arquivado, sem hesitação.
Guardou em casa a arma, limpou-a muitas vezes, e chorava sempre, copiosamente, arrependido. Quando sua nova namorada se aproximava, curiosa com o que ele fazia por horas no closet, ele guardava tudo apressadamente e tratava de apagar os sinais da maior obsessão, repetir o seu discurso suspenso, alimentado diariamente ao som da música que não a fez ouvir. Nem para a foto dela conseguia apontar. Um dia, quem sabe.
03.08.09 em: Segunda