Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postJanaína

Tiana Maciel Ellwanger

Com ela

Janaína me fazia enlouquecer, em todos os sentidos. No início, nossa vida era regada a prazeres, viagens e festas. Algumas brigas e ofensas, resolvidas com noites de amor intensas que me faziam sentir inveja de sua pouca idade.

Com o passar dos anos, as reclamações em forma de voz aguda começaram a me incomodar. Sua necessidade de falar o tempo todo, o cabelo desgrenhado ao acordar, o tom da gargalhada que subia conforme aumentava o número da dose de uísque. Ela justificava tudo: solidão com o meu desprezo.

Dizia que eu era grosseiro, mas seus olhares desejantes em direção a outros homens me tiravam do sério. Sabia que eu já não era tão atraente a seus olhos, minhas histórias e opiniões embasadas repetiam-se com a convivência; a curiosidade dela pela vida pedia mais.

Sem admitir, adorava quando dançava pra mim, sorrindo, implorando declarações de amor. Queria ter um filho, eu não mais. Chorava e, por algum motivo, deixá-la aos prantos me dava prazer. Quando ela soube de Maria, que engravidou num de nossos encontros após o almoço, parecia que ia morrer em gritos sem vigor, quase meigos, buscando explicações. Continuamos a viver sob o mesmo teto. Meses de humilhação. 

Ela estava plena naquela noite, seu sono transbordava tranquilidade. Mas ao me ver, seu semblante transformou-se na expressão de terror mais linda que já vi.

Sem ela

O silêncio ocupava a maior parte do meu dia. A rotina sem êxtase, sem vozes (a não ser as dos cantores de tango) e sem discussões era quase tediosa. As músicas que fizeram Janaína arregalar os olhos quando as apresentei eram agora, enfadonhas.

No lado da cama onde ela dormia, eu deixava livros espalhados, papéis rabiscados com frases sem sentido. Eles ocupavam o espaço dela, sem preenchê-lo. Seu cheiro já tinha saído da cama; nem o aroma de sangue que trazia seu sorriso à minha mente eu conseguia mais sentir.

As notícias no jornal falando de impunidade, influências e falta de Justiça para os que têm poder não mais me atingiam. Eu não oferecia risco a ninguém que estivesse vivo e nunca acreditei em punição gratuita. Meu advogado estava convencido de que a tese de legítima defesa tinha conquistado o juiz, que como eu, devia saber a dor de ser traído. Quanto a mim, já não temia a vida numa cela.

Maria não queria mais me ver e, com isso, também não vi mais Fabiana, minha filha, que deve estar com uns três anos agora. Eu não ligava. Parei de atender o telefone e, nos últimos meses, meus contatos com pessoas restringiam-se aos entregadores de comida e remédios.

Quando fecho os olhos, os últimos segundos que estive com Janaína vem à mente, sempre antes de dormir. Se ela não estivesse tão linda, serena, talvez fosse diferente. Mas vê-la deitada ao lado daquele moleque, que ela trazia à nossa casa para relembrar os tempos da faculdade, foi devastador. Acertei os dois, na cabeça, com a força que eu já não imaginava ter. O abajur, ou arma do crime se você preferir chamá-lo assim, fica aceso durante minhas tentativas de dormir em paz, como Janaína estava naquela noite, em que morri com ela.

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04.08.09 em: Terça