Sangue de gatas
Raquel C. de Medeiros

- Sim, ou melhor, não… Mais ou menos, seu guarda.
- Há quanto tempo vocês moravam juntas?
-Há um mês, desde que vi o anúncio no jornal. Pareceu-me um pouco desmiolada, mas tão bonita. Tinha uma personalidade irresistível. E me ofereceu um quarto com armário, cama de solteiro e uma linda penteadeira.
- O que ela fazia?
- Lili era engenheira cartográfica, inteligentíssima.
- Tinha namorado?
- Sim, chamava-se Antenor e chegava de São Paulo nos finais de semana com flores, bombons e um ciúme doentio.
- Ela parecia ter algum segredo?
- Era muito misteriosa, seu guarda. Seu olhar guardava baús trancafiados.
- Observou alguma atitude estranha nos últimos dias?
- Lili tinha uma amiga que vinha durante a semana e sempre me oferecia balas de caramelo. As duas trancavam-se no quarto e eu só as via novamente no café da manhã. Outro dia tiveram uma discussão feia, seu guarda. Houve um quebra-quebra no quarto e acho que ouvi a outra falar em morte aos berros. Quis sair do meu quarto para salvar Lili mas não tive coragem… Só ouvia o barulho dos objetos batendo no chão: rezei e chorei muito naquela noite. Prometi que sairia daquela casa no dia seguinte, mas Lili, que estava toda marcada, me convenceu a ficar. Ela precisava viajar por uns dias e eu teria que tomar conta da casa. Disse, olhando nos meus olhos e segurando as minhas mãos, que eu precisava ajudá-la. “Não deixe Brigitte sozinha”, ela me pediu.
- Lili foi pra onde?
- Não sei, seu guarda, só sei que estou com muito medo, nem consigo mais dormir e fico ouvindo a voz da minha mãe a repetir que eu tomasse muito cuidado com as pessoas, deveria buscar referências. Mas me encantei tanto com Lili, seu guarda, tão interessante, segura, pensei que eu poderia ficar igual a ela, sabe? Mudei-me na semana seguinte. Hoje quando abri a porta de casa senti cheiro de morte. Foi por isso que o senhor me parou, seu guarda?
Um tumulto próximo levou o policial invisível e as respostas de Alice. Agora ela se perguntava se havia sido enganada por aquele espelho antigo e embaçado da casa de Lili. E agora, meu Anjo, e agora? Já anoitecia, mas ainda era tempo de descobrir. Ainda era tempo de quebrá-lo e desafiar seu silencioso destino. Era o que pensava quando deu o primeiro passo de volta a casa amarela. Agora nem o medo a interceptaria.
06.08.09 em: Quinta
