Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postSangue de gatas

Raquel C. de Medeiros

Crime-blog
 

 

 

 

 

Antes de abrir a portinhola da casa amarela teve uma sensação estranha. Entardecia e a fachada parecia mais desbotada. Entrou com um pouco de medo e saiu correndo ao ver o reflexo da gata Brigitte no espelho da sala: havia gotas de sangue em seu pêlo malhado. E agora, meu Anjo, e agora?, perguntou a moça, desorientada. Queria correr para o colo da mãe, mas sua família morava longe, no interior, a pelo menos uns quatrocentos quilômetros dali. Sentiu-se desamparada: lá, pensou, poderia recorrer a algum vizinho que lhe daria um copo de água com açúcar, mas ali não havia gente familiar nem a crença nos calmantes naturais. Seu coração disparou com tanta violência que achou que fosse morrer, mas ficou ainda mais nervosa ao pensar que poderia morrer sozinha, Santo Anjo do Senhor, e agora?. Alice caminhou até a praça e cruzou com um policial invisível que a interrogou:
 
- Vocês eram amigas?
 

 - Sim, ou melhor, não… Mais ou menos, seu guarda.

- Há quanto tempo vocês moravam juntas?

-Há um mês, desde que vi o anúncio no jornal. Pareceu-me um pouco desmiolada, mas tão bonita. Tinha uma personalidade irresistível. E me ofereceu um quarto com armário, cama de solteiro e uma linda penteadeira.

- O que ela fazia?

- Lili era engenheira cartográfica, inteligentíssima.

- Tinha namorado?

- Sim, chamava-se Antenor e chegava de São Paulo nos finais de semana com flores, bombons e um ciúme doentio.

- Ela parecia ter algum segredo?

- Era muito misteriosa, seu guarda. Seu olhar guardava baús trancafiados.

- Observou alguma atitude estranha nos últimos dias?

- Lili tinha uma amiga que vinha durante a semana e sempre me oferecia balas de caramelo. As duas trancavam-se no quarto e eu só as via novamente no café da manhã. Outro dia tiveram uma discussão feia, seu guarda. Houve um quebra-quebra no quarto e acho que ouvi a outra falar em morte aos berros. Quis sair do meu quarto para salvar Lili mas não tive coragem… Só ouvia o barulho dos objetos batendo no chão: rezei e chorei muito naquela noite. Prometi que sairia daquela casa no dia seguinte, mas Lili, que estava toda marcada, me convenceu a ficar. Ela precisava viajar por uns dias e eu teria que tomar conta da casa. Disse, olhando nos meus olhos e segurando as minhas mãos, que eu precisava ajudá-la. “Não deixe Brigitte sozinha”, ela me pediu.

- Lili foi pra onde?

- Não sei, seu guarda, só sei que estou com muito medo, nem consigo mais dormir e fico ouvindo a voz da minha mãe a repetir que eu tomasse muito cuidado com as pessoas, deveria buscar referências. Mas me encantei tanto com Lili, seu guarda, tão interessante, segura, pensei que eu poderia ficar igual a ela, sabe? Mudei-me na semana seguinte. Hoje quando abri a porta de casa senti cheiro de morte. Foi por isso que o senhor me parou, seu guarda?

 Um tumulto próximo levou o policial invisível e as respostas de Alice. Agora ela se perguntava se havia sido enganada por aquele espelho antigo e embaçado da casa de Lili. E agora, meu Anjo, e agora? Já anoitecia, mas ainda era tempo de descobrir. Ainda era tempo de quebrá-lo e desafiar seu silencioso destino. Era o que pensava quando deu o primeiro passo de volta a casa amarela. Agora nem o medo a interceptaria.

 

 

 

 

 

 

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06.08.09 em: Quinta



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