Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postA lata de biscoitos

x Convidado Sábado x

Por Lúcia Gomes

vovo“Houve um tempo em que o meu bairro não era um bairro de classe alta, ou média alta. Era um bairro proletário, onde ficavam fábricas que já não existem mais. Em torno dos apitos chamando os operários para o trabalho existia uma comunidade carente chamada por todos de Parque Proletário. Foi neste bairro modesto que eu cresci. Minha família aqui firmou residência em época de bondes.Talvez poucos se lembrem do cheiro de esgoto que vinha do rio Rainha, ou da vila de casas pobres que ficava ao lado. Lá, num pequeno cômodo alugado, mais pobre ainda, vivia vovó e sua lata de biscoitos.

Vovó nunca morou com a gente. Habitava uma casa velha, numa antiga vila.

À hora do almoço eu levava um prato de comida, enrolado num pano de prato, para ela comer. Batia na porta e ela chegava, trêmula, envergonhada, não me convidava para entrar. Quer um biscoito, minha neta? Eu agradecia, dizia que não precisava, ela insistia. Eu pegava o biscoito, fingia que comia, enfiava no bolso do vestido e ia embora.

Em casa, ficava com o biscoito no bolso, remexendo, remexendo, até que esfarelava e se transformava em algo impossível de comer.. Eu queria, mas não comia. Temia. Um universo fantasmagórico cercava a vida da minha avó. Casou aos dezessete anos. Ficou viúva aos vinte e três. Perdeu o marido de tuberculose e uma filha ainda bebê. Brigas horríveis, conversas trocadas, ovos queimando a boca de crianças que falavam palavrões. Havia cascalhos na areia da minha estrada de menina. O medo ficava sentado atrás da porta, vigiando a noite.

Um dia vovó acordou cega. Talvez Deus tenha achado melhor ela ver o invisível. Foi para a nossa casa, para o quarto onde dormíamos eu e minha irmã. Dormia quase que o dia inteiro. À noite acordava, puxava uma lata de biscoitos vazia que ficava debaixo da cama e fazia xixi. Eu e minha irmã cobríamos a cabeça com o lençol. Depois ela conversava. Minha neta, quem é este moço bonito? Não sei, vovó…Às vezes acordava gritando – Olha a moça de branco!…manda ela embora, manda ela embora, ela veio me buscar. Nós pulávamos na cama e gritávamos – vai embora moça de branco, vai embora moça de branco! Então ela se sentava, clara, magrinha, penteava a cabeleira com um pente azul, faltando alguns dentes. Quando estava pronta, perguntava se alguém tinha ido vê-la. Não, vovó. Então ela puxava o lençol e dormia. Já era dia.

Certo dia vovó dormiu junto com a sua cegueira. O pente azul, faltando alguns dentes, ficou largado na cama com alguns fios de cabelo branco. À noite ainda escuto o barulho da urina caindo na lata. Pequeno ruído, cheio de humildade. E meu coração se enche de amor.

Quer um biscoito, minha neta?

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08.08.09 em: Sábado