Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postQui je suis?

Tiana Maciel Ellwanger

Chegou de Paris, assim, meio perdido, com sotaque estranho, sem entender muito bem as gírias, as atitudes, a pressa, o lixo nas ruas. Deixou as malas no hotel e foi direto para aquela casa escura, que costumava tocar música boa quando morava na cidade, maravilhosa? 
Não sabia por quê, mas torcia para que aquela loira fosse gringa, quem sabe poderia falar com ela em sua língua tão perdida quanto ele naquele “inferninho” carioca?
Ao perguntar para a mulher de vestido curto ― que língua você fala? ― a decepção: “português”. Era a sua língua, mãe, mas queria falar outra, pensava em outra. Estava acostumado ou sei lá o quê. As caipirinhas roubaram sua lógica, mas trouxeram vontade de toque. Música, dança, corpos largados na pista, individualizados, com interações não-verbais, tudo parecia atiçar seus sentidos. 
― Você é daqui então?, perguntou porque não podia dizer: “Ou vis-tu?”
Aquela língua estranha, tão cheia de bicos que exigia pronúncia e paciência, interpretação quase teatral, tomara conta de seu modo de pensar nos últimos anos. Estava confuso, como um estrangeiro em Paris e também no Rio.
― Sim, e você?, respondeu a moça.
― Também. Mas moro fora.
― Ah, é, onde?
― Em Paris, moro com ele, mas não somos gays, explicou e riu porque era sempre assim.
Ela falava sobre os dias cinzas, mal-humorados, que passara em Paris, linda a cidade, mas sem falar francês, não dava. Ele não conseguia tirar os olhos de sua boca recheada de histórias, de sua língua brasileira. Aproximou-se para um beijo. Recusado, “calma, estamos conversando”, disse ela e continuou a perguntar. Ele, sem esperanças, entrou num papo estranho de idade, identidade, queria voltar, mas não queria, estava em crise, sabe? “Coisa de francês”, brincou. Sem querer, derrubou as barreiras dela e o beijo, depois, foi consequência. Assim como a noite que se seguiu, incroyable!
Qui je suis?”, “Qui je suis?”, acordou gritando, molhado de suor, depois do sonho estranho em que um homem perguntava quem ele era, e ele tentava, mas não conseguia responder.

[Post to Twitter]  [Post to Delicious]  [Post to Digg]  [Post to StumbleUpon] 

11.08.09 em: Terça